quarta-feira, 27 de maio de 2026

O acaso mais bonito



Quando nascemos, a única certeza que trazemos connosco é a de que, um dia, iremos partir. Conscientes ou inconscientes disso, seja pessoa, planta ou animal, vai existir um momento marcado no calendário invisível do Universo – e que nós não sabemos quando – em que passaremos a ser apenas uma recordação. Como eu escrevi, num outro texto (e que, curiosamente, está inserido num dos meus livros): um dia “num pequeno assobio de vento, seremos apenas uma mera recordação na memória dos que ainda são solidez.”
Desde muito nova que lido com a perda. Perder alguém não significa necessariamente que essa pessoa parou de respirar ou que deixou este mundo. Por vezes (demasiadas até, e mais do que gostaríamos), há pessoas que saem da nossa vida, mas continuam a existir nesta dimensão terrena. Apenas decidem ir embora ou chegam à conclusão de que não se encaixam no que somos.
E depois, há a perda de objetos, de identidade, de seres vivos que, tal como os seres humanos, partem também...
A primeira vez que perdi um animal, tinha três ou quatro anos. Chamava-se Toby e era o cão do senhor Anselmo, na altura meu senhorio. Na ingenuidade própria da infância, tornou-se o meu companheiro. Ficava com ele à porta de casa, sentada no quintal. Ele deitava-se ao meu lado, enquanto eu brincava às casinhas. Posso dizer, com firmeza, que ele foi um dos meus primeiros amigos. 
Um dia, desapareceu. Fugiu de casa e nunca mais voltou…
Um pouco mais tarde, com meia década de vida, fui mordida por o cão de uns vizinhos e, com esse pequeno acidente, chegou o medo dos cães. De cada vez que um cão se cruzava comigo na rua, eu começava a transpirar, o coração acelerava e parecia que o espaço à minha volta diminuía. Custava-me, porque achava os cães divertidos, sobretudo os Labradores e os Golden Retreviers – as raças que sempre achei mais bonitas. Mas era algo que eu simplesmente não conseguia controlar, como todas as fobias que nos assolam e das quais não temos culpa.
Contudo, a vida tem uma forma mágica e estranha de nos surpreender.
Aos vinte e dois anos, quando conheci o André, conheci também a Kira, a sua cadelinha. Um Bulldog francês, cheio de músculo, carinho e energia. 
E, precisamente porque a vida dá muitas voltas e é a responsável pelos milagres do mundo, desenvolvemos uma amizade improvável. Passo a passo, sem eu dar conta, a Kira foi-me conquistando. Aos poucos, esfregava-se na minha perna, sem que eu desse um salto. Sentava-se aos meus pés, sem que o meu coração acelerasse… Um dia, quando dei por mim, estava com ela ao colo, a fazer-lhe festas! 
Costumava esperar pelo André ao sábado à noite, no seu quarto de solteiro e era a Kira quem me fazia companhia. Levava os apontamentos para estudar para os exames da universidade e ia debitando a matéria, com ela como audiência. Quando comecei a ter os primeiros sintomas da Doença de Behçet, quando as dores nas costas começaram a levar a melhor, a Kira aproximava-se de mim e começava a ganir, dizendo-me à sua maneira: “Estou aqui, não estás sozinha!” 
Mordia-me os atacadores dos ténis, para não me deixar ir embora e arranhava a porta da casa de banho quando eu estava lá dentro, permanecendo fielmente do outro lado, até eu sair. No Natal de 2017, na minha lista de presentes a comprar, o nome dela estava lá – ofereci-lhe três bolas de ténis que duraram vinte minutos e ouvi um raspanete do André, “Eu avisei-te!”
A Kira foi especial e duvido que algum dia vá encontrar um cão igual a ela. Neste momento, enquanto escrevo estas palavras, choro. São lágrimas de gratidão. Porque a Kira fez-me perceber que a melhor forma de destruirmos o medo é enfrentá-lo. E, com ela, eu desfiz um bocadinho a barreira do meu medo pelos cães.
Agora, a Kira foi correr sem destino, foi farejar o mundo que teimam em dizer que é melhor do que o nosso, embora ninguém saiba de sua justiça se isso é verdade. Quero acreditar que sim. Porque a única certeza que temos ao longo deste caminho, nem sempre justo e nada fácil de compreender, é a de que um dia já não haverá mais dia.
A sua fotografia permanece imortalizada na minha fita de fim de curso e a sensação do seu peso no meu colo, ficou gravada no meu coração. Não admito que alguém me diga que não gosto de cães. Porque eu gostei e gostarei sempre da Kira! Como uma fiel amiga, uma perfeita confidente e o medicamento que me atenuou o medo pelos seus amigos patudos.
Assim como há pessoas que nos assustam e outras que nos causam empatia, eu e a Kira tivemos uma ligação empática e completa, que ninguém pode negar. Ontem à noite, o André disse-me: “Ela gostava muito de ti!” e eu sei que é verdade.
Enquanto eu tiver memória, a Kira estará aqui. Como uma recordação bonita no que resta da minha solidez, já tão calejada de perdas. E, por isso, eu não a perdi. Nós não a perdemos. 
Perder, não é deixar de estar fisicamente, é apagar da memória. E enquanto a minha permanecer, ela também permanecerá…
A Kira, foi o meu acaso mais bonito.



Descansa em paz, fofinha. 
E obrigada por tudo o que me (nos) ensinaste; 
obrigada pela companhia, pela sensibilidade 
e pelo amor puro e verdadeiro que me deste!




[Texto e imagem originais da autora]


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quarta-feira, 20 de maio de 2026

A minha religião



Na folha em branco surgem palavras que há muito lutavam para sair. Frases coerentes, outras nem tanto, conforme o contexto ou o estado de espírito.
Parágrafos soltos, mas completos, vertidos de uma alma que, gota a gota, se foi desmembrando. É só no papel que ela se remenda, como se este fosse a agulha, e a linha a caneta, que a coseria para se voltar a parecer com algo, mais ou menos, inteiro.
E, assim, ditando para a página virgem o que a minha alma, por sua vez, me dita, nasceu a minha forma de religião. Porque são as palavras a minha oração secreta, o pedido desesperado do eco de mim e da sombra do que um dia fui.
É nos meus cadernos que guardo a luz, que me ajuda a ver a iluminação no caminho. É nas incontáveis páginas ­– de linhas ou lisas, tanto faz!, mas todas preenchidas de fio a pavio – que eu vejo a Bíblia que me leva até Ele.
Não sei se é blasfémia, mas posso com toda a certeza afirmar que é a sinceridade mais pura que me cruza o peito e penetra no ponto mais profundo de quem sou. A escrita, mais do que uma crença, é o sangue que me corre nas veias, as vitaminas que me equilibram, o alimento que me mantém minimamente saudável e as canadianas que me auxiliam ao andar.
A escrita é o meu deus! O meu credo. A minha saída nos dias de escuridão e o meu antidepressivo natural, que me faz enfrentar a claridade que a solidão da noite teima em fazer aparecer, quando são horas de me deitar.
Dela, não peço muito! Apenas que permaneça junto a mim, como uma mãe eterna, movida pela constância que eu me habituei, tanto a dar, como a receber.
A ela, peço-lhe tudo! Que me guie, que me oriente, que me elucide e que me faça perceber que não tenho de ficar onde já não faz sentido estar.
Escrever é uma forma de vida. É o copo de redenção que tomo juntamente com o primeiro café da manhã. É o que me impede de tropeçar ou, quando não o pode fazer, quem me levanta e me ajuda a recolocar no caminho.
Escrever é uma dádiva. É o que me faz acreditar na continuidade, no amanhã, no que vem depois (se este, efetivamente, chegar).
Escrever é a minha religião e eu sou-lhe completamente fiel, sabendo que a entrega é mútua.





[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]


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quarta-feira, 13 de maio de 2026

A carrinha pão de forma



Numa madrugada cinzenta de maio, eles partiram à aventura sem olhar para trás. Estava frio, nem sequer era verão, o céu prometia tempestade e o silêncio que reinava metia medo aos indecisos.
Mas eles não quiseram saber! Movidos pelo impulso (e pela coragem – verdade seja dita…), enfiaram-se na carrinha pão de forma, com meia dúzia de pertences na mochila e o resto da bagagem no coração.
Invejei-lhes a ousadia. O pragmatismo de reconhecer que estava na hora de seguir viagem, sem pensar em mais nada do que a simples necessidade de se reencontrarem.
Jovens, mas com a dose certa de maturidade, souberam dar azo aos sonhos, em vez de se afundarem na realidade dura, que provoca dor para lá dos ossos e que põe em causa os resquícios de sanidade.
Admirei-os! Largamente…
Porque eu jamais seria capaz de mudar de rumo, sem pensar no amanhã.
Eu, aquela que planeia até ao limite, aquela que aponta tudo até ao ínfimo detalhe, num papel vincado pelos nervos, só para ter a certeza de que não se esqueceu de nada.
E eles, livres como a imensidão, filhos de uma boa estrela, que os iluminou, fizeram-se simplesmente ao caminho, desapegando-se de tudo aquilo que não os acrescentava.
Quem sabe, cheguem a uma praia onde as ondas embatem nas rochas e provocam a erosão que torna as memórias dolorosas mais fáceis de suportar. Talvez se sentem lado a lado na bagageira da carrinha, com uma manta pelas costas e uma lata da bebida da verdade nas mãos, para serem testemunhas da forma como o céu se tinge no pôr do sol e de como os segredos partilhados têm a capacidade de aliviar a carga e soprar os fantasmas para longe.
Talvez descubram um campo verdejante, pejado de calma e ar puro, capaz de os acolher numa madrugada muito diferente e muito mais branda, do que aquela em que partiram, sem hesitar.
Talvez o lugar-certo seja não fazer planos para depois. Talvez a verdade esteja no amanhã não programado, que liberta o ontem que nos obrigou a ajustar a rota e a (re)aprender a navegar ao sabor da maré da vida e dos caminhos que os seus desígnios dizem ser para nós.
A dor não desaparece apenas por a ignorarmos. Mas torna-se mais fácil de enfrentar quando lhe retiramos peso. E retirar-lhe peso, talvez seja, quem sabe, somente mudar o foco.
Talvez. Quem sabe. Novamente, e sempre, a incerteza que molda as questões retóricas do Universo...
Quem me dera ser como aquelas duas almas, que ousaram partir dentro de uma carrinha pão de forma, apenas com o básico, mas empenhados em descortinar o futuro na onda do deixar-ir.
O que se poupa? A ansiedade do porvir. O suor do pensamento a mais. As batidas de um coração descompassado que mede tudo, exaustivamente, antes de agir.
Quem me dera ter uma carrinha pão de forma e a coragem de trazer para uma madrugada cinzenta o sol que sei que ainda há em mim.


Nádia Carnide Pimenta


[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]


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quarta-feira, 6 de maio de 2026

O caos que ninguém via



Entraste nos meus sonhos, sem aviso prévio, como quem bate à porta e entra sem ser convidado. À semelhança das vezes sem conta em que cometeste essa proeza meio louca e desconexa, porém certeira, penetraste todas as barreiras (pelos vistos, frágeis) que ergui ao meu redor, na esperança de me proteger do mundo e de tudo o que ele hoje inclui de cortante.
Atravessaste todas essas muralhas de papel, comprovando uma vez mais o caos que ninguém via: o emaranhado de tombos, os amontoados de arranhões, as doses de nódoas negras e as incontáveis ilusões, desfeitas como grãos de pó soprados pelo ar.
Com a tua ambiguidade peculiar, perturbaste-me um sono, jamais descansado e nunca retemperador, mostrando-me que ninguém se pode fechar em si próprio e isolar-se para sempre. Fizeste-me questionar as hipóteses e as conclusões que pensei achar para mim mesma, que me ajudaram a lidar com tudo aquilo que me parecia impossível de aceitar e, pior ainda, de compreender. Fiquei ainda mais baralhada, atolada até aos ossos em confusão, como se essa não fosse já a palavra que melhor me define.
Tu, com a tua dualidade entre o cliché infundado e o arquétipo do mistério, ensinaste-me que, quando achamos que tudo está virado do avesso, percebemos que este é composto por camadas, e que, depois de uma, outra surge, levando-nos por um labirinto que nos mostra que viver é isto: andar à deriva sem achar o caminho da saída.
Mas quando acordo do que não dormi, só me lembro do teu olhar e do teu toque onírico a roçar-me a pele e das palavras que, entre o carinho e a veemência, me sussurraste: "É no meio do caos que aprendemos a sarar."
E agora, manhã viva, céu claro, com um sol ofuscante a turvar-me a visão, quase consigo acreditar que é essa a verdade que comanda a vida dos Homens. Porque se fosse tudo fácil e banal, não haveria histórias para contar. E porque a verdade, também, é que sem ter o que escrever, eu deixaria de respirar.
E é este o caos que ninguém via, que nunca ninguém viu, à exceção de ti. Tu és a ordem, a bússola e o guia para eu lidar com a matéria, porque a energia vem por si só, quando apesar de me sentir dilacerada, colo a alma com o eco das tuas palavras, as que me disseste esta noite quando entraste, pela enésima vez, nos meus sonhos. É no meio do caos que aprendemos a sarar e é precisamente dentro desse caos que conto um número ímpar de feridas, remetidas a cicatriz. 




[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]


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