quarta-feira, 6 de maio de 2026

O caos que ninguém via



Entraste nos meus sonhos, sem aviso prévio, como quem bate à porta e entra sem ser convidado. À semelhança das vezes sem conta em que cometeste essa proeza meio louca e desconexa, porém certeira, penetraste todas as barreiras (pelos vistos, frágeis) que ergui ao meu redor, na esperança de me proteger do mundo e de tudo o que ele hoje inclui de cortante.
Atravessaste todas essas muralhas de papel, comprovando uma vez mais o caos que ninguém via: o emaranhado de tombos, os amontoados de arranhões, as doses de nódoas negras e as incontáveis ilusões, desfeitas como grãos de pó soprados pelo ar.
Com a tua ambiguidade peculiar, perturbaste-me um sono, jamais descansado e nunca retemperador, mostrando-me que ninguém se pode fechar em si próprio e isolar-se para sempre. Fizeste-me questionar as hipóteses e as conclusões que pensei achar para mim mesma, que me ajudaram a lidar com tudo aquilo que me parecia impossível de aceitar e, pior ainda, de compreender. Fiquei ainda mais baralhada, atolada até aos ossos em confusão, como se essa não fosse já a palavra que melhor me define.
Tu, com a tua dualidade entre o cliché infundado e o arquétipo do mistério, ensinaste-me que, quando achamos que tudo está virado do avesso, percebemos que este é composto por camadas, e que, depois de uma, outra surge, levando-nos por um labirinto que nos mostra que viver é isto: andar à deriva sem achar o caminho da saída.
Mas quando acordo do que não dormi, só me lembro do teu olhar e do teu toque onírico a roçar-me a pele e das palavras que, entre o carinho e a veemência, me sussurraste: "É no meio do caos que aprendemos a sarar."
E agora, manhã viva, céu claro, com um sol ofuscante a turvar-me a visão, quase consigo acreditar que é essa a verdade que comanda a vida dos Homens. Porque se fosse tudo fácil e banal, não haveria histórias para contar. E porque a verdade, também, é que sem ter o que escrever, eu deixaria de respirar.
E é este o caos que ninguém via, que nunca ninguém viu, à exceção de ti. Tu és a ordem, a bússola e o guia para eu lidar com a matéria, porque a energia vem por si só, quando apesar de me sentir dilacerada, colo a alma com o eco das tuas palavras, as que me disseste esta noite quando entraste, pela enésima vez, nos meus sonhos. É no meio do caos que aprendemos a sarar e é precisamente dentro desse caos que conto um número ímpar de feridas, remetidas a cicatriz. 




[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]


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