sexta-feira, 19 de junho de 2026

Alma de papel




Tenho saudades de me sentar a ler um livro no Parque da Matriz. Saudades de receber o sol na cara – que me aquece mais do que a pele – enquanto a sua luz incide nas páginas que, muito mais do que povoar sonhos, me retornam à vida, nos dias em que é preciso coragem para desbravar caminho e eu não a consigo encontrar. A natureza recarrega-me as baterias, fazendo de mim um painel solar de escrita e de leitura.
Escrevi muitas vezes ao ar livre. Quem me conhece bem, sabe que a minha imagem de marca foi, durante anos, ter a companhia de um caderno com a cara da Pocahontas na capa e uma caneta na mão, para onde quer que fosse. Eu defendo que a inspiração está em todos os lugares e tento, em cada livro que escrevo, criar personagens que desfiem o caudal das relações humanas. Porque defendo, a par e passo, que a literatura cria conexões entre as pessoas e que estamos todos mais próximos uns dos outros do que pensamos. Gosto de pensar que se eu própria me consegui ajudar com as minhas palavras, por que não existir a possibilidade de quem as ler se identificar também?
Não sei se sabem, mas o meu ponto fraco é ter uma alma feita de papel.
E não me interpretem de modo errado! Com isto, não quero dar a entender que a parte mais profunda de mim se pode desfazer a qualquer instante, que é frágil ou demasiado suscetível a máculas, por ser deste material aparentemente tão etéreo.
Quando digo que a minha alma é de papel, quero dizer precisamente o contrário! Quero explicitar como ela é forte, como se renova com regularidade de cada vez que lê ou escreve e como é capaz de enfrentar as maiores batalhas e devolver ao exterior o que me tenta cortar sem, de facto, me atingir.
Ainda assim, não deixa de ser o meu ponto fraco e, talvez, o de todos os escritores – de verdade.
Ter uma alma de papel pode significar que não vivemos sem passar precisamente para o papel o que nos atormenta, o que nos faz felizes, o que nos confunde, o que nos acerta o trajeto... É como se fosse a medicação que nos atenua uma doença crónica, é como um vício ou uma droga.
Ser de papel significa muitas coisas. Entre elas, que uma folha em branco tem sempre espaço para escrever, seja para desabafar com a ajuda da caneta o que o coração não consegue estancar por si só, seja para criar novas histórias que tornem os dias de alguém mais leves, como acontece comigo de cada vez que leio um livro e me embrenho nele para me esquecer do que me rouba a sanidade e exponencia o stress.
Sim, eu sou daquelas pessoas cujo nome próprio poderia ser facilmente substituído por “papel”, “livro”, “página” ou “história”. Tenho uma lista interminável de títulos que quero comprar e ler, uma coleção infinita de marcadores e muitas estantes organizadas de acordo com os meus próprios critérios. Cheiro o interior de cada obra que me vem parar às mãos, leio tudo de fio a pavio – ficha técnica e agradecimentos, incluídos. Gosto de sentir a gramagem do papel, de saber como soa a sua textura ao toque, de ver o seu efeito na luz e na sombra e de abrir o livro ao acaso, apenas para encontrar uma frase que me deixe a pensar e a refletir. Antigamente, tinha uma espécie de ritual com cada livro que lia; criava um cenário adequado à história e depois colocava o livro como objeto de destaque, antes de tirar uma fotografia.
No que toca a escrever, tenho imensas ideias e histórias começadas, ainda sem meio, mas sempre com fim. A minha cabeça é um turbilhão, porque o meu peito guarda tudo, até transbordar. Sou um verdadeiro ferro-velho de invenções, todas elas agarradas ao papel e à caneta. Todas elas com uma razão e um propósito, mas mais importante do que tudo, todas elas com sentimento!
Há magia nas palavras de quem escreve, de quem coloca tudo de si na criação de algo inato e inédito, com a finalidade de o partilhar com o mundo. Há magia em quem lê, no que consegue formar na sua mente ao absorver as frases desenroladas em cada página, no que absorve de cada mensagem que o livro teima em transmitir.
Escrever não é uma moda. Não é uma escolha, como decidir a cor de uma peça de roupa ou o sabor de um gelado. Escrever pressupõe intenção, mas acima de tudo alma. Quem escreve, escreve-o porque a sua criatividade lhe grita para transmitir no papel o que a sua mente não consegue guardar para si. Há quem escreva como uma forma de terapia, de autoconhecimento. Há quem escreva para mitigar a mágoa ou para ajudar alguém. Há quem escreva para se libertar e há quem escreva por muitos outros e infinitos motivos… Mas há uma coisa que todos os escritores têm em comum: todos eles escrevem com alma. E todos eles têm uma alma de papel.
E, neste momento da minha vida, no presente da nossa sociedade, há algo que me assusta muito mais do que qualquer outra coisa. Que, num mundo onde a fachada é a indumentária diária, a pureza e a sinceridade da escrita (que contém tanto dentro do seu “simples” significado) se torne também num embuste movido a vontades, caprichos, egos e popularidade.
Pensem comigo: porque é que um artigo feito à mão é mais caro do que um artigo criado por uma produção em massa? Pensem novamente comigo: os livros escritos por Inteligência Artificial poderão ser equiparados aos livros escritos por alguém que deposita no papel tudo o que a mente e o coração lhe dita?
Qual a solução? O que há a fazer?
Onde fica a pureza da alma de quem escreve sem escrever? Para onde vai o conceito de humanidade, quando se substitui as palavras ditadas pela mente e desenhadas pela caneta, por frases cuspidas de uma máquina, que não pensou, não sentiu, enfim, não criou?
Há magia maior, ou verdade maior, do que chorar com as personagens, do que lhes emprestar as nossas lágrimas? Do que sentir o que elas sentem, do que beber as suas mágoas, do que exultar os seus sorrisos e do que percorrer o mesmo caminho que elas percorrem (e que, muitas vezes, é o nosso)? Há algo mais louvável do que um autor que partilha a sua história, colocando muitas vezes a sua vida, a sua personalidade, as suas mágoas e vitórias a nu?
Dizem os críticos e os entendidos que, daqui a algum tempo, não vamos ser capazes de distinguir os livros escritos por IA dos escritos por mão humana. Quer isto equiparar-se às relações de hoje em dia? À fachada em que vivemos a nossa rotina? De como aparecemos a sorrir em público e nas redes sociais e de como nos matamos no silêncio das quatro paredes, quando temos apenas o (des)prazer da nossa companhia?
Pode isto assemelhar-se às máscaras que se usam todos os dias para se formar um protótipo de sonho e modelo a seguir, quando por dentro sangramos memórias, calamos traumas, relegamos para segundo plano o eco do que um dia fomos ou quisemos verdadeiramente ser, e que nos impede de nos olharmos ao espelho?
Pensem novamente comigo: será assim tão difícil fazer a distinção? Ou será apenas uma questão de observar com atenção, de ler com propósito, de sentir e procurar o sentido, a profundidade e o sentimento, escondido nas entrelinhas? Ou, neste caso, a falta dele… As explicações curtas e sem detalhe, os pormenores em falta, a falta de emoção que os verdadeiros escritores colocam em cada parágrafo, os caminhos e as possibilidades ao invés do atalho que conduz rapidamente para o final… 
Talvez a minha alma de papel seja realmente fraca, incompatível com a evolução distorcida dos tempos que correm e que não me permitem acompanhar esse caminho.
Ainda assim, não o lamento. Porque não sei agir de outra maneira, nem ser outra coisa. Como preciso do ar para respirar, preciso da escrita para me purgar e viver, preciso de ler para me alimentar e para ganhar a esperança que vejo escapar por entre os dedos, qual ampulheta escoando a areia sem piedade.
Sim, a minha alma é feita de papel e, em vez de o renegar, sinto-me abençoada por isso.



Nádia Carnide Pimenta


[Texto original da autora; Fotografia de Luís Rangel]


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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Cair na real



Olhei para trás, a imaginar o que não tive, o que não fui e o que não aconteceu. 
Acho que não há nada pior, nem mais extenuante, do que perder tempo com o que nunca foi, nem nunca será.

Um rol de questões assalta-me a cabeça:
“Porque é que não permaneci, em vez de continuar em frente?”
“Porque é que não tentei mais uma vez, em vez de cortar e mudar o rumo?”
“Porque é que não chorei novamente até quase sufocar e, ao invés, decidi sorrir, mesmo com a alma a arder e o coração em carne viva?”

Talvez a resposta seja simples:
Porque aprendi a navegar (ainda que a custo) na senda do amor-próprio.

Não há nada que custe a nossa paz.

Mesmo as “pessoas certas”, os “amores apaixonantes”, os “melhores amigos” e os “familiares dedicados”. 
Mesmo a tradição, o valor ou o sangue. 
Nada, nem ninguém. 

Onde não há paz, não há amor. Onde não há transparência, não pode haver estabilidade. 
Não são as metades que fazem o todo. O que é inteiro é que não precisa de se dividir.

E é esta a (dura) realidade. 

Fiz das tripas coração para a reconhecer e aceitar. E, agora que a abracei, não quero outra coisa.
Protejo-me no meu casulo, porque assim fico mais forte. Como um cavaleiro reluzente com escudo e armadura, blindo-me ao que me esgota a energia, em vez de a renovar.
E assim, ganho mais tempo. 

Tempo para viver o que ainda não vivi, mas que pode ser vivido...

O ontem já não se traduz em ameaça. O futuro é um espaço em branco.
Quem foi, já não está. Quem está por vir, que feche a porta quando chegar.

Eu encontro-me no hoje e é nele que tenho de me focar, sabendo que o agora sou eu e que eu é que tenho a chave para decidir se tranco o que já não me acrescenta, ou se o solto com a brisa da manhã…




[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]




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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Pela primeira vez



É incrível e mágico testemunhar como uma criança vê as coisas pela primeira vez. E, quando digo isto, refiro-me a ver, mesmo. Ver, com sentido, propósito e até com curiosidade e reverência, de uma forma que nos faz debruçar a pensar sobre isto. É aquela velha máxima cliché: quantas vezes olhamos para as coisas sem, de facto, as ver?
Tenho aprendido muito com o meu filho. Todos os dias. A toda a hora. Declaro isto muitas vezes e sei que me torno repetitiva, talvez, na maior parte delas, mas a verdade é que o meu filho me salvou de cair no abismo.
Antes de ficar grávida, passei por uma fase em que me sentia, literalmente, na corda bamba. Vivia para o trabalho, desabafava na escrita e fechava-me em casa, fazendo um esforço enorme quando tinha de sair e conviver com alguém. Depois de muitas desilusões, começava a perder a esperança, custava-me confiar em novas pessoas, porque quase todas as que já estavam na minha vida, ou que partiram sem aviso mas com consciência dessa escolha, tinham quebrado a plena confiança que lhes ofereci.
Mas depois chegou o Simão. "Simão – aquele que ouve", como um dos subcapítulos do meu O Vento Sabe Quem Eu Sou.
Aos poucos, ele fez-me desacelerar, deixar de viver em piloto automático. Devolveu-me o propósito, renovou-me a esperança e, sem dúvida, a inspiração. Fiz coisas que jurei a mim mesma nunca mais fazer. E parei de fazer outras, que comprometiam o meu tempo e, principalmente, a minha sanidade.
Decidi dar uma segunda oportunidade a quem, por sua vez, tinha decidido ficar pelo caminho. Enchi-me de coragem e enfrentei os meus medos e inseguranças. Refiz-me, qual Fénix, para o receber e obriguei-me a pensar positivo, apesar do diagnóstico imediato de uma gravidez de risco.
Ainda na minha barriga fomos criando uma ligação forte, pura e inexplicável. Quando nasceu, o Simão tornou-se o centro da minha vida. Foi um lutador desde o seu primeiro fôlego, mostrou a fibra de que é feito e a sua força de viver. E foi, precisamente, desde o seu primeiro minuto de vida que eu percebi como ele é sensível, observador, astuto e perspicaz. Claro que tem os seus defeitos, como toda a gente. Herdou a teimosia, sobretudo (e dos dois progenitores, claro!). Mas é completo e, para mim, aos meus olhos, mais do que isso, é completamente perfeito!
Adoro ver a maneira como ele se empenha no que faz, a sua persistência e o facto de não desistir quando descobre um novo jogo ou brincadeira. Absorve tudo à sua volta e eu (re)descubro com ele tudo aquilo que achava que já compreendia.
Que cada detalhe tem um significado incomensurável. Que o sabor de um raio de sol é tão importante quanto o da comida que temos na mesa e que, muitas das vezes, comemos apenas porque tem de ser. Que um prato de quadradinhos de queijo e puffs de milho pode facilmente transformar-se num bando de lagartinhas saltitantes e, acima de tudo, que mesmo nos dias cinzentos (ou particularmente nesses) pode-se pintar com essa cor no papel e desenhar o infinito.
O Simão ensina-me a ver as coisas com outra perspetiva, mas especialmente com olhos de ver. Ele ensina-me, todos os dias, a ver as coisas pela primeira vez!
Ele gosta de livros, de jogar à bola, de inventar as suas próprias brincadeiras ao ar livre. Sabe as cores, os números e as letras. E está na fase "papagaio de repetição". Adora crianças, "cocuate" (leia-se: chocolate), morangos, iogurte e comida, no geral. É fã do seu paninho azul, do galo Bartolinho e de todos os membros da Patrulha Pata, comandada pelo “Ryder-Senhor”. É o meu ser de luz, porque ilumina a minha vida e a de todos os que o rodeiam.
Ele tem a inocência própria de uma criança feliz e a alma de quem já viveu muitas vidas. E eu acredito que isso é meio caminho andado para triunfar na sua.
Às vezes, quando penso nisto, tendo a acreditar também eu própria em vidas passadas e em reencarnação. Não sei o que fui ou serei nas outras… Mas, tal como nesta, escolheria ser mãe do Simão em todas elas, ainda que saiba que foi ele quem me escolheu a mim.
 

P. S – As crianças são os seres mais puros e sábios que existem. Todas as crianças têm direito a ser felizes e livres. A brincar, a aprender, a sorrir. Que nunca, em circunstância alguma, nos esqueçamos disto! Todos nós já fomos crianças. E é assim que a humanidade começa…



Nádia Carnide Pimenta


[Texto e imagem originais da autora]



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quarta-feira, 27 de maio de 2026

O acaso mais bonito



Quando nascemos, a única certeza que trazemos connosco é a de que, um dia, iremos partir. Conscientes ou inconscientes disso, seja pessoa, planta ou animal, vai existir um momento marcado no calendário invisível do Universo – e que nós não sabemos quando – em que passaremos a ser apenas uma recordação. Como eu escrevi, num outro texto (e que, curiosamente, está inserido num dos meus livros): um dia “num pequeno assobio de vento, seremos apenas uma mera recordação na memória dos que ainda são solidez.”
Desde muito nova que lido com a perda. Perder alguém não significa necessariamente que essa pessoa parou de respirar ou que deixou este mundo. Por vezes (demasiadas até, e mais do que gostaríamos), há pessoas que saem da nossa vida, mas continuam a existir nesta dimensão terrena. Apenas decidem ir embora ou chegam à conclusão de que não se encaixam no que somos.
E depois, há a perda de objetos, de identidade, de seres vivos que, tal como os seres humanos, partem também...
A primeira vez que perdi um animal, tinha três ou quatro anos. Chamava-se Toby e era o cão do senhor Anselmo, na altura meu senhorio. Na ingenuidade própria da infância, tornou-se o meu companheiro. Ficava com ele à porta de casa, sentada no quintal. Ele deitava-se ao meu lado, enquanto eu brincava às casinhas. Posso dizer, com firmeza, que ele foi um dos meus primeiros amigos. 
Um dia, desapareceu. Fugiu de casa e nunca mais voltou…
Um pouco mais tarde, com meia década de vida, fui mordida por o cão de uns vizinhos e, com esse pequeno acidente, chegou o medo dos cães. De cada vez que um cão se cruzava comigo na rua, eu começava a transpirar, o coração acelerava e parecia que o espaço à minha volta diminuía. Custava-me, porque achava os cães divertidos, sobretudo os Labradores e os Golden Retreviers – as raças que sempre achei mais bonitas. Mas era algo que eu simplesmente não conseguia controlar, como todas as fobias que nos assolam e das quais não temos culpa.
Contudo, a vida tem uma forma mágica e estranha de nos surpreender.
Aos vinte e dois anos, quando conheci o André, conheci também a Kira, a sua cadelinha. Um Bulldog francês, cheio de músculo, carinho e energia. 
E, precisamente porque a vida dá muitas voltas e é a responsável pelos milagres do mundo, desenvolvemos uma amizade improvável. Passo a passo, sem eu dar conta, a Kira foi-me conquistando. Aos poucos, esfregava-se na minha perna, sem que eu desse um salto. Sentava-se aos meus pés, sem que o meu coração acelerasse… Um dia, quando dei por mim, estava com ela ao colo, a fazer-lhe festas! 
Costumava esperar pelo André ao sábado à noite, no seu quarto de solteiro e era a Kira quem me fazia companhia. Levava os apontamentos para estudar para os exames da universidade e ia debitando a matéria, com ela como audiência. Quando comecei a ter os primeiros sintomas da Doença de Behçet, quando as dores nas costas começaram a levar a melhor, a Kira aproximava-se de mim e começava a ganir, dizendo-me à sua maneira: “Estou aqui, não estás sozinha!” 
Mordia-me os atacadores dos ténis, para não me deixar ir embora e arranhava a porta da casa de banho quando eu estava lá dentro, permanecendo fielmente do outro lado, até eu sair. No Natal de 2017, na minha lista de presentes a comprar, o nome dela estava lá – ofereci-lhe três bolas de ténis que duraram vinte minutos e ouvi um raspanete do André, “Eu avisei-te!”
A Kira foi especial e duvido que algum dia vá encontrar um cão igual a ela. Neste momento, enquanto escrevo estas palavras, choro. São lágrimas de gratidão. Porque a Kira fez-me perceber que a melhor forma de destruirmos o medo é enfrentá-lo. E, com ela, eu desfiz um bocadinho a barreira do meu medo pelos cães.
Agora, a Kira foi correr sem destino, foi farejar o mundo que teimam em dizer que é melhor do que o nosso, embora ninguém saiba de sua justiça se isso é verdade. Quero acreditar que sim. Porque a única certeza que temos ao longo deste caminho, nem sempre justo e nada fácil de compreender, é a de que um dia já não haverá mais dia.
A sua fotografia permanece imortalizada na minha fita de fim de curso e a sensação do seu peso no meu colo, ficou gravada no meu coração. Não admito que alguém me diga que não gosto de cães. Porque eu gostei e gostarei sempre da Kira! Como uma fiel amiga, uma perfeita confidente e o medicamento que me atenuou o medo pelos seus amigos patudos.
Assim como há pessoas que nos assustam e outras que nos causam empatia, eu e a Kira tivemos uma ligação empática e completa, que ninguém pode negar. Ontem à noite, o André disse-me: “Ela gostava muito de ti!” e eu sei que é verdade.
Enquanto eu tiver memória, a Kira estará aqui. Como uma recordação bonita no que resta da minha solidez, já tão calejada de perdas. E, por isso, eu não a perdi. Nós não a perdemos. 
Perder, não é deixar de estar fisicamente, é apagar da memória. E enquanto a minha permanecer, ela também permanecerá…
A Kira, foi o meu acaso mais bonito.



Descansa em paz, fofinha. 
E obrigada por tudo o que me (nos) ensinaste; 
obrigada pela companhia, pela sensibilidade 
e pelo amor puro e verdadeiro que me deste!




[Texto e imagem originais da autora]


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quarta-feira, 20 de maio de 2026

A minha religião



Na folha em branco surgem palavras que há muito lutavam para sair. Frases coerentes, outras nem tanto, conforme o contexto ou o estado de espírito.
Parágrafos soltos, mas completos, vertidos de uma alma que, gota a gota, se foi desmembrando. É só no papel que ela se remenda, como se este fosse a agulha, e a linha a caneta, que a coseria para se voltar a parecer com algo, mais ou menos, inteiro.
E, assim, ditando para a página virgem o que a minha alma, por sua vez, me dita, nasceu a minha forma de religião. Porque são as palavras a minha oração secreta, o pedido desesperado do eco de mim e da sombra do que um dia fui.
É nos meus cadernos que guardo a luz, que me ajuda a ver a iluminação no caminho. É nas incontáveis páginas ­– de linhas ou lisas, tanto faz!, mas todas preenchidas de fio a pavio – que eu vejo a Bíblia que me leva até Ele.
Não sei se é blasfémia, mas posso com toda a certeza afirmar que é a sinceridade mais pura que me cruza o peito e penetra no ponto mais profundo de quem sou. A escrita, mais do que uma crença, é o sangue que me corre nas veias, as vitaminas que me equilibram, o alimento que me mantém minimamente saudável e as canadianas que me auxiliam ao andar.
A escrita é o meu deus! O meu credo. A minha saída nos dias de escuridão e o meu antidepressivo natural, que me faz enfrentar a claridade que a solidão da noite teima em fazer aparecer, quando são horas de me deitar.
Dela, não peço muito! Apenas que permaneça junto a mim, como uma mãe eterna, movida pela constância que eu me habituei, tanto a dar, como a receber.
A ela, peço-lhe tudo! Que me guie, que me oriente, que me elucide e que me faça perceber que não tenho de ficar onde já não faz sentido estar.
Escrever é uma forma de vida. É o copo de redenção que tomo juntamente com o primeiro café da manhã. É o que me impede de tropeçar ou, quando não o pode fazer, quem me levanta e me ajuda a recolocar no caminho.
Escrever é uma dádiva. É o que me faz acreditar na continuidade, no amanhã, no que vem depois (se este, efetivamente, chegar).
Escrever é a minha religião e eu sou-lhe completamente fiel, sabendo que a entrega é mútua.





[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]


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quarta-feira, 13 de maio de 2026

A carrinha pão de forma



Numa madrugada cinzenta de maio, eles partiram à aventura sem olhar para trás. Estava frio, nem sequer era verão, o céu prometia tempestade e o silêncio que reinava metia medo aos indecisos.
Mas eles não quiseram saber! Movidos pelo impulso (e pela coragem – verdade seja dita…), enfiaram-se na carrinha pão de forma, com meia dúzia de pertences na mochila e o resto da bagagem no coração.
Invejei-lhes a ousadia. O pragmatismo de reconhecer que estava na hora de seguir viagem, sem pensar em mais nada do que a simples necessidade de se reencontrarem.
Jovens, mas com a dose certa de maturidade, souberam dar azo aos sonhos, em vez de se afundarem na realidade dura, que provoca dor para lá dos ossos e que põe em causa os resquícios de sanidade.
Admirei-os! Largamente…
Porque eu jamais seria capaz de mudar de rumo, sem pensar no amanhã.
Eu, aquela que planeia até ao limite, aquela que aponta tudo até ao ínfimo detalhe, num papel vincado pelos nervos, só para ter a certeza de que não se esqueceu de nada.
E eles, livres como a imensidão, filhos de uma boa estrela, que os iluminou, fizeram-se simplesmente ao caminho, desapegando-se de tudo aquilo que não os acrescentava.
Quem sabe, cheguem a uma praia onde as ondas embatem nas rochas e provocam a erosão que torna as memórias dolorosas mais fáceis de suportar. Talvez se sentem lado a lado na bagageira da carrinha, com uma manta pelas costas e uma lata da bebida da verdade nas mãos, para serem testemunhas da forma como o céu se tinge no pôr do sol e de como os segredos partilhados têm a capacidade de aliviar a carga e soprar os fantasmas para longe.
Talvez descubram um campo verdejante, pejado de calma e ar puro, capaz de os acolher numa madrugada muito diferente e muito mais branda, do que aquela em que partiram, sem hesitar.
Talvez o lugar-certo seja não fazer planos para depois. Talvez a verdade esteja no amanhã não programado, que liberta o ontem que nos obrigou a ajustar a rota e a (re)aprender a navegar ao sabor da maré da vida e dos caminhos que os seus desígnios dizem ser para nós.
A dor não desaparece apenas por a ignorarmos. Mas torna-se mais fácil de enfrentar quando lhe retiramos peso. E retirar-lhe peso, talvez seja, quem sabe, somente mudar o foco.
Talvez. Quem sabe. Novamente, e sempre, a incerteza que molda as questões retóricas do Universo...
Quem me dera ser como aquelas duas almas, que ousaram partir dentro de uma carrinha pão de forma, apenas com o básico, mas empenhados em descortinar o futuro na onda do deixar-ir.
O que se poupa? A ansiedade do porvir. O suor do pensamento a mais. As batidas de um coração descompassado que mede tudo, exaustivamente, antes de agir.
Quem me dera ter uma carrinha pão de forma e a coragem de trazer para uma madrugada cinzenta o sol que sei que ainda há em mim.


Nádia Carnide Pimenta


[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]


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quarta-feira, 6 de maio de 2026

O caos que ninguém via



Entraste nos meus sonhos, sem aviso prévio, como quem bate à porta e entra sem ser convidado. À semelhança das vezes sem conta em que cometeste essa proeza meio louca e desconexa, porém certeira, penetraste todas as barreiras (pelos vistos, frágeis) que ergui ao meu redor, na esperança de me proteger do mundo e de tudo o que ele hoje inclui de cortante.
Atravessaste todas essas muralhas de papel, comprovando uma vez mais o caos que ninguém via: o emaranhado de tombos, os amontoados de arranhões, as doses de nódoas negras e as incontáveis ilusões, desfeitas como grãos de pó soprados pelo ar.
Com a tua ambiguidade peculiar, perturbaste-me um sono, jamais descansado e nunca retemperador, mostrando-me que ninguém se pode fechar em si próprio e isolar-se para sempre. Fizeste-me questionar as hipóteses e as conclusões que pensei achar para mim mesma, que me ajudaram a lidar com tudo aquilo que me parecia impossível de aceitar e, pior ainda, de compreender. Fiquei ainda mais baralhada, atolada até aos ossos em confusão, como se essa não fosse já a palavra que melhor me define.
Tu, com a tua dualidade entre o cliché infundado e o arquétipo do mistério, ensinaste-me que, quando achamos que tudo está virado do avesso, percebemos que este é composto por camadas, e que, depois de uma, outra surge, levando-nos por um labirinto que nos mostra que viver é isto: andar à deriva sem achar o caminho da saída.
Mas quando acordo do que não dormi, só me lembro do teu olhar e do teu toque onírico a roçar-me a pele e das palavras que, entre o carinho e a veemência, me sussurraste: "É no meio do caos que aprendemos a sarar."
E agora, manhã viva, céu claro, com um sol ofuscante a turvar-me a visão, quase consigo acreditar que é essa a verdade que comanda a vida dos Homens. Porque se fosse tudo fácil e banal, não haveria histórias para contar. E porque a verdade, também, é que sem ter o que escrever, eu deixaria de respirar.
E é este o caos que ninguém via, que nunca ninguém viu, à exceção de ti. Tu és a ordem, a bússola e o guia para eu lidar com a matéria, porque a energia vem por si só, quando apesar de me sentir dilacerada, colo a alma com o eco das tuas palavras, as que me disseste esta noite quando entraste, pela enésima vez, nos meus sonhos. É no meio do caos que aprendemos a sarar e é precisamente dentro desse caos que conto um número ímpar de feridas, remetidas a cicatriz. 




[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]


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