Tenho saudades de me sentar a ler um livro no Parque da Matriz. Saudades de receber o sol na cara – que me aquece mais do que a pele – enquanto a sua luz incide nas páginas que, muito mais do que povoar sonhos, me retornam à vida, nos dias em que é preciso coragem para desbravar caminho e eu não a consigo encontrar. A natureza recarrega-me as baterias, fazendo de mim um painel solar de escrita e de leitura.
Escrevi muitas vezes ao ar livre. Quem me conhece bem, sabe que a minha imagem de marca foi, durante anos, ter a companhia de um caderno com a cara da Pocahontas na capa e uma caneta na mão, para onde quer que fosse. Eu defendo que a inspiração está em todos os lugares e tento, em cada livro que escrevo, criar personagens que desfiem o caudal das relações humanas. Porque defendo, a par e passo, que a literatura cria conexões entre as pessoas e que estamos todos mais próximos uns dos outros do que pensamos. Gosto de pensar que se eu própria me consegui ajudar com as minhas palavras, por que não existir a possibilidade de quem as ler se identificar também?
Não sei se sabem, mas o meu ponto fraco é ter uma alma feita de papel.
E não me interpretem de modo errado! Com isto, não quero dar a entender que a parte mais profunda de mim se pode desfazer a qualquer instante, que é frágil ou demasiado suscetível a máculas, por ser deste material aparentemente tão etéreo.
Quando digo que a minha alma é de papel, quero dizer precisamente o contrário! Quero explicitar como ela é forte, como se renova com regularidade de cada vez que lê ou escreve e como é capaz de enfrentar as maiores batalhas e devolver ao exterior o que me tenta cortar sem, de facto, me atingir.
Ainda assim, não deixa de ser o meu ponto fraco e, talvez, o de todos os escritores – de verdade.
Ter uma alma de papel pode significar que não vivemos sem passar precisamente para o papel o que nos atormenta, o que nos faz felizes, o que nos confunde, o que nos acerta o trajeto... É como se fosse a medicação que nos atenua uma doença crónica, é como um vício ou uma droga.
Ser de papel significa muitas coisas. Entre elas, que uma folha em branco tem sempre espaço para escrever, seja para desabafar com a ajuda da caneta o que o coração não consegue estancar por si só, seja para criar novas histórias que tornem os dias de alguém mais leves, como acontece comigo de cada vez que leio um livro e me embrenho nele para me esquecer do que me rouba a sanidade e exponencia o stress.
Sim, eu sou daquelas pessoas cujo nome próprio poderia ser facilmente substituído por “papel”, “livro”, “página” ou “história”. Tenho uma lista interminável de títulos que quero comprar e ler, uma coleção infinita de marcadores e muitas estantes organizadas de acordo com os meus próprios critérios. Cheiro o interior de cada obra que me vem parar às mãos, leio tudo de fio a pavio – ficha técnica e agradecimentos, incluídos. Gosto de sentir a gramagem do papel, de saber como soa a sua textura ao toque, de ver o seu efeito na luz e na sombra e de abrir o livro ao acaso, apenas para encontrar uma frase que me deixe a pensar e a refletir. Antigamente, tinha uma espécie de ritual com cada livro que lia; criava um cenário adequado à história e depois colocava o livro como objeto de destaque, antes de tirar uma fotografia.
No que toca a escrever, tenho imensas ideias e histórias começadas, ainda sem meio, mas sempre com fim. A minha cabeça é um turbilhão, porque o meu peito guarda tudo, até transbordar. Sou um verdadeiro ferro-velho de invenções, todas elas agarradas ao papel e à caneta. Todas elas com uma razão e um propósito, mas mais importante do que tudo, todas elas com sentimento!
Há magia nas palavras de quem escreve, de quem coloca tudo de si na criação de algo inato e inédito, com a finalidade de o partilhar com o mundo. Há magia em quem lê, no que consegue formar na sua mente ao absorver as frases desenroladas em cada página, no que absorve de cada mensagem que o livro teima em transmitir.
Escrever não é uma moda. Não é uma escolha, como decidir a cor de uma peça de roupa ou o sabor de um gelado. Escrever pressupõe intenção, mas acima de tudo alma. Quem escreve, escreve-o porque a sua criatividade lhe grita para transmitir no papel o que a sua mente não consegue guardar para si. Há quem escreva como uma forma de terapia, de autoconhecimento. Há quem escreva para mitigar a mágoa ou para ajudar alguém. Há quem escreva para se libertar e há quem escreva por muitos outros e infinitos motivos… Mas há uma coisa que todos os escritores têm em comum: todos eles escrevem com alma. E todos eles têm uma alma de papel.
E, neste momento da minha vida, no presente da nossa sociedade, há algo que me assusta muito mais do que qualquer outra coisa. Que, num mundo onde a fachada é a indumentária diária, a pureza e a sinceridade da escrita (que contém tanto dentro do seu “simples” significado) se torne também num embuste movido a vontades, caprichos, egos e popularidade.
Pensem comigo: porque é que um artigo feito à mão é mais caro do que um artigo criado por uma produção em massa? Pensem novamente comigo: os livros escritos por Inteligência Artificial poderão ser equiparados aos livros escritos por alguém que deposita no papel tudo o que a mente e o coração lhe dita?
Qual a solução? O que há a fazer?
Onde fica a pureza da alma de quem escreve sem escrever? Para onde vai o conceito de humanidade, quando se substitui as palavras ditadas pela mente e desenhadas pela caneta, por frases cuspidas de uma máquina, que não pensou, não sentiu, enfim, não criou?
Há magia maior, ou verdade maior, do que chorar com as personagens, do que lhes emprestar as nossas lágrimas? Do que sentir o que elas sentem, do que beber as suas mágoas, do que exultar os seus sorrisos e do que percorrer o mesmo caminho que elas percorrem (e que, muitas vezes, é o nosso)? Há algo mais louvável do que um autor que partilha a sua história, colocando muitas vezes a sua vida, a sua personalidade, as suas mágoas e vitórias a nu?
Dizem os críticos e os entendidos que, daqui a algum tempo, não vamos ser capazes de distinguir os livros escritos por IA dos escritos por mão humana. Quer isto equiparar-se às relações de hoje em dia? À fachada em que vivemos a nossa rotina? De como aparecemos a sorrir em público e nas redes sociais e de como nos matamos no silêncio das quatro paredes, quando temos apenas o (des)prazer da nossa companhia?
Pode isto assemelhar-se às máscaras que se usam todos os dias para se formar um protótipo de sonho e modelo a seguir, quando por dentro sangramos memórias, calamos traumas, relegamos para segundo plano o eco do que um dia fomos ou quisemos verdadeiramente ser, e que nos impede de nos olharmos ao espelho?
Pensem novamente comigo: será assim tão difícil fazer a distinção? Ou será apenas uma questão de observar com atenção, de ler com propósito, de sentir e procurar o sentido, a profundidade e o sentimento, escondido nas entrelinhas? Ou, neste caso, a falta dele… As explicações curtas e sem detalhe, os pormenores em falta, a falta de emoção que os verdadeiros escritores colocam em cada parágrafo, os caminhos e as possibilidades ao invés do atalho que conduz rapidamente para o final…
Talvez a minha alma de papel seja realmente fraca, incompatível com a evolução distorcida dos tempos que correm e que não me permitem acompanhar esse caminho.
Ainda assim, não o lamento. Porque não sei agir de outra maneira, nem ser outra coisa. Como preciso do ar para respirar, preciso da escrita para me purgar e viver, preciso de ler para me alimentar e para ganhar a esperança que vejo escapar por entre os dedos, qual ampulheta escoando a areia sem piedade.
Sim, a minha alma é feita de papel e, em vez de o renegar, sinto-me abençoada por isso.
Escrevi muitas vezes ao ar livre. Quem me conhece bem, sabe que a minha imagem de marca foi, durante anos, ter a companhia de um caderno com a cara da Pocahontas na capa e uma caneta na mão, para onde quer que fosse. Eu defendo que a inspiração está em todos os lugares e tento, em cada livro que escrevo, criar personagens que desfiem o caudal das relações humanas. Porque defendo, a par e passo, que a literatura cria conexões entre as pessoas e que estamos todos mais próximos uns dos outros do que pensamos. Gosto de pensar que se eu própria me consegui ajudar com as minhas palavras, por que não existir a possibilidade de quem as ler se identificar também?
Não sei se sabem, mas o meu ponto fraco é ter uma alma feita de papel.
E não me interpretem de modo errado! Com isto, não quero dar a entender que a parte mais profunda de mim se pode desfazer a qualquer instante, que é frágil ou demasiado suscetível a máculas, por ser deste material aparentemente tão etéreo.
Quando digo que a minha alma é de papel, quero dizer precisamente o contrário! Quero explicitar como ela é forte, como se renova com regularidade de cada vez que lê ou escreve e como é capaz de enfrentar as maiores batalhas e devolver ao exterior o que me tenta cortar sem, de facto, me atingir.
Ainda assim, não deixa de ser o meu ponto fraco e, talvez, o de todos os escritores – de verdade.
Ter uma alma de papel pode significar que não vivemos sem passar precisamente para o papel o que nos atormenta, o que nos faz felizes, o que nos confunde, o que nos acerta o trajeto... É como se fosse a medicação que nos atenua uma doença crónica, é como um vício ou uma droga.
Ser de papel significa muitas coisas. Entre elas, que uma folha em branco tem sempre espaço para escrever, seja para desabafar com a ajuda da caneta o que o coração não consegue estancar por si só, seja para criar novas histórias que tornem os dias de alguém mais leves, como acontece comigo de cada vez que leio um livro e me embrenho nele para me esquecer do que me rouba a sanidade e exponencia o stress.
Sim, eu sou daquelas pessoas cujo nome próprio poderia ser facilmente substituído por “papel”, “livro”, “página” ou “história”. Tenho uma lista interminável de títulos que quero comprar e ler, uma coleção infinita de marcadores e muitas estantes organizadas de acordo com os meus próprios critérios. Cheiro o interior de cada obra que me vem parar às mãos, leio tudo de fio a pavio – ficha técnica e agradecimentos, incluídos. Gosto de sentir a gramagem do papel, de saber como soa a sua textura ao toque, de ver o seu efeito na luz e na sombra e de abrir o livro ao acaso, apenas para encontrar uma frase que me deixe a pensar e a refletir. Antigamente, tinha uma espécie de ritual com cada livro que lia; criava um cenário adequado à história e depois colocava o livro como objeto de destaque, antes de tirar uma fotografia.
No que toca a escrever, tenho imensas ideias e histórias começadas, ainda sem meio, mas sempre com fim. A minha cabeça é um turbilhão, porque o meu peito guarda tudo, até transbordar. Sou um verdadeiro ferro-velho de invenções, todas elas agarradas ao papel e à caneta. Todas elas com uma razão e um propósito, mas mais importante do que tudo, todas elas com sentimento!
Há magia nas palavras de quem escreve, de quem coloca tudo de si na criação de algo inato e inédito, com a finalidade de o partilhar com o mundo. Há magia em quem lê, no que consegue formar na sua mente ao absorver as frases desenroladas em cada página, no que absorve de cada mensagem que o livro teima em transmitir.
Escrever não é uma moda. Não é uma escolha, como decidir a cor de uma peça de roupa ou o sabor de um gelado. Escrever pressupõe intenção, mas acima de tudo alma. Quem escreve, escreve-o porque a sua criatividade lhe grita para transmitir no papel o que a sua mente não consegue guardar para si. Há quem escreva como uma forma de terapia, de autoconhecimento. Há quem escreva para mitigar a mágoa ou para ajudar alguém. Há quem escreva para se libertar e há quem escreva por muitos outros e infinitos motivos… Mas há uma coisa que todos os escritores têm em comum: todos eles escrevem com alma. E todos eles têm uma alma de papel.
E, neste momento da minha vida, no presente da nossa sociedade, há algo que me assusta muito mais do que qualquer outra coisa. Que, num mundo onde a fachada é a indumentária diária, a pureza e a sinceridade da escrita (que contém tanto dentro do seu “simples” significado) se torne também num embuste movido a vontades, caprichos, egos e popularidade.
Pensem comigo: porque é que um artigo feito à mão é mais caro do que um artigo criado por uma produção em massa? Pensem novamente comigo: os livros escritos por Inteligência Artificial poderão ser equiparados aos livros escritos por alguém que deposita no papel tudo o que a mente e o coração lhe dita?
Qual a solução? O que há a fazer?
Onde fica a pureza da alma de quem escreve sem escrever? Para onde vai o conceito de humanidade, quando se substitui as palavras ditadas pela mente e desenhadas pela caneta, por frases cuspidas de uma máquina, que não pensou, não sentiu, enfim, não criou?
Há magia maior, ou verdade maior, do que chorar com as personagens, do que lhes emprestar as nossas lágrimas? Do que sentir o que elas sentem, do que beber as suas mágoas, do que exultar os seus sorrisos e do que percorrer o mesmo caminho que elas percorrem (e que, muitas vezes, é o nosso)? Há algo mais louvável do que um autor que partilha a sua história, colocando muitas vezes a sua vida, a sua personalidade, as suas mágoas e vitórias a nu?
Dizem os críticos e os entendidos que, daqui a algum tempo, não vamos ser capazes de distinguir os livros escritos por IA dos escritos por mão humana. Quer isto equiparar-se às relações de hoje em dia? À fachada em que vivemos a nossa rotina? De como aparecemos a sorrir em público e nas redes sociais e de como nos matamos no silêncio das quatro paredes, quando temos apenas o (des)prazer da nossa companhia?
Pode isto assemelhar-se às máscaras que se usam todos os dias para se formar um protótipo de sonho e modelo a seguir, quando por dentro sangramos memórias, calamos traumas, relegamos para segundo plano o eco do que um dia fomos ou quisemos verdadeiramente ser, e que nos impede de nos olharmos ao espelho?
Pensem novamente comigo: será assim tão difícil fazer a distinção? Ou será apenas uma questão de observar com atenção, de ler com propósito, de sentir e procurar o sentido, a profundidade e o sentimento, escondido nas entrelinhas? Ou, neste caso, a falta dele… As explicações curtas e sem detalhe, os pormenores em falta, a falta de emoção que os verdadeiros escritores colocam em cada parágrafo, os caminhos e as possibilidades ao invés do atalho que conduz rapidamente para o final…
Talvez a minha alma de papel seja realmente fraca, incompatível com a evolução distorcida dos tempos que correm e que não me permitem acompanhar esse caminho.
Ainda assim, não o lamento. Porque não sei agir de outra maneira, nem ser outra coisa. Como preciso do ar para respirar, preciso da escrita para me purgar e viver, preciso de ler para me alimentar e para ganhar a esperança que vejo escapar por entre os dedos, qual ampulheta escoando a areia sem piedade.
Sim, a minha alma é feita de papel e, em vez de o renegar, sinto-me abençoada por isso.
Nádia Carnide Pimenta
[Texto original da autora; Fotografia de Luís Rangel]












