quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Compromisso



Foi um compromisso que fiz comigo mesma. Num dia banal e comum, olhei-me finalmente ao espelho, enfrentando todas as minhas versões. Aquelas que já não me cabiam, como uma roupa que deixa de servir, e as que teci, cuidadosa e criteriosamente, para assentarem que nem uma luva na pessoa que sou hoje.
Então, sem perder tempo a analisar aquilo que foi exaustivamente analisado, encarei-me e absorvi o reflexo que o espelho me devolveu.
Sei que escrevi que houve um tempo em que olhar-me ao espelho doía*, mas hoje essa dor profunda e intensa, e que me fazia usar uma dupla adjetivação para a descrever, voou para bem longe, deixando apenas um leve latejar.
Porque foi hoje que, num passo de magia de presente enleado em futuro, eu percebi, de uma vez por todas, que mais valia comprometer-me comigo mesma e aceitar tudo aquilo que fui e que sou, do que ir tolerando os falhanços dos outros comigo, fazendo-me falhar também.
Fartei-me de engolir sapos, de me fazer de cega, surda e muda, de me anular para deixar que as culpas recaiam sobre os meus ombros, constantemente curvados pelo peso exigido.
Hoje, num dia banal, semelhante a tantos outros, decidi nunca mais marcar na agenda, nunca mais assinalar no calendário, o dia propício para deixar brilhar o sol que há em mim. E ser sol e ser luz, é também ser sombra e escuridão de permeio, mas ter o discernimento suficiente para entender que tudo faz parte do caminho e que é precisamente esse tudo, que torna tudo especial.
É entender também que somos exatamente o que temos e o que precisamos de ser.
Por isso, selo um compromisso entre mim e o espelho, onde as cláusulas contemplam esperança (a eterna), coragem (a indispensável), verdade (a incontornável) e compaixão (a necessária) e os seus cognomes se tornam no antidepressivo natural, que me faz caminhar por cima do muro da vida e preservar pedra sobre pedra, o que me impede de cair em queda-livre no abismo.
O texto é curto mas não preciso de me alongar nas palavras, quando a verdade certeira mora em mim.
Recomeçar é o impulso dos vencedores.




[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]


* Esta frase faz parte do texto Assombração, do livro O Vento Sabe Quem Eu Sou



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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Anel de Diamante



São muitas as histórias acerca do amor proibido entre o Sol e a Lua. A mais bonita (pelo menos, a meu ver) diz que ambos se amam desde o início do Mundo. Desde o começo da Vida, em todos os sentidos, ambientes e formas, quando se reuniram com o Deus que tudo criou e este lhes concedeu as maiores e as mais importantes missões da existência.
Ao Sol, conferiu-lhe a responsabilidade de iluminar o dia, onde há barulho e movimento e as formas de vida têm espaço para se manifestar; à Lua, consagrou-lhe a vigília da noite, o reino de paz que esta edifica e que medeia o descanso dos guerreiros.
Diz-se que estes dois componentes da vastidão da Via Láctea se amam desde sempre, mas que foram condenados a viver separados. Diz-se que as responsabilidades opostas que possuem os fizeram reféns. Mas há também quem conte, com aguerrida certeza, que muito raramente, quase esquecido no decorrer do tempo e na passagem das eras, estes dois amantes têm um rápido encontro. Algo que dura somente um minuto, etéreo, frágil, fugaz, mas que os deixa vigorar num abraço e atenuar – nunca matar, porque para isso seria preciso uma dimensão maior – a saudade que os faz viver eternamente pela metade, sem alcançar a plenitude.
A esse acontecimento chama-se Eclipse e este breve conto é sobre ele.
 

Eles lutaram.
Contra os lados opostos, que não os compreendiam e que exigiam a separação definitiva, mesmo que o balanço dos encontros fosse praticamente nulo. Contra as mãos (aparentemente) amigas, que gritavam querer “o melhor para eles” e que se cingiam, qual relógio de repetição, ao lema “isso não vai resultar”.
Saturados, mas sempre com vontade de vencer, participaram em inúmeras reuniões do cosmos. Todo o sistema solar alinhado, a chamá-los à razão e a dizer-lhes que “não poderia ser assim”, porque eram ambos donos das missões mais importantes do Universo.
Eles lutaram.
Com espadas invisíveis de coragem, empunhadas com firmeza e paixão. Com armas silenciosas, em que os argumentos permaneciam do lado de dentro do corpo, junto ao peito – porque mesmo sendo feitos de algo diferente e inexplicável, menos palpável mas ainda assim real – eles existiam de uma forma muito particular e tinham sentimentos, tal como a Humanidade. Lutaram com a convicção redobrada de quem sabe que, mesmo estando tudo em negação, é apenas uma questão de tempo até acontecer, ainda que seja limitado.
Eles lutaram.
Contra tudo e contra todos!
Menos um contra o outro…
No dia preciso, na hora exata, no momento crucial e indefinível, mas determinante, cederam.
Ele era luz, brilho alucinante, extroversão clara e expansiva, que ofuscava tudo à sua passagem.
Ela, era completamente o oposto. Movia-se pela claridade que conseguia captar dos corpos e das estrelas que a rodeavam, numa passagem etérea. Dona de uma forma delicada e apaziguadora, que preferia muitas vezes a penumbra e o silêncio para ousar existir, permanecia precisamente numa existência comedida, rendida ao ato defensivo de preservar a parte de si que saíra magoada ao longo do tempo, por ter arriscado demais.
Juntos, naquele momento raro de dualidade – que misturava realidade com sonho, que enleava estado bruto e imensidão onírica – sobrepuseram-se e deram origem ao fenómeno.
Ela, pacífica e reservada, foi cobrindo cada pedaço dele com a calma que a caraterizava, uma paciência cultivada ao explorar toda a topografia que a compunha – a ela e ao Mundo – e que fizera de si quem era. À medida que o ocultava, sentia o ambiente mudar, assim como ela própria. Vales, crateras, todo o relevo abrindo-se à permissão do brilho, da luz, daquilo que, por norma, media criteriosamente, antes de mostrar ao mundo.
Ele, por seu lado, deixou-se tapar, sentindo-se quente e aconchegado, como que embalado por uma melodia suave e doce, que o deixava descansar e entregar-se àquilo que os Deuses, os Planetas, a Matéria e, mais tarde, os Homens, diziam ser impossível acontecer.
E foi assim que nasceu o Anel de Diamante. Foi nesse encontro de duas premissas opostas, mas não assim tão distantes uma da outra, que uma gota brilhante sobressaiu no meio da escuridão.
Quando mais nada se via, quando o vazio, o negro e o escuro pareciam querer dominar toda a dimensão terrena e também a do Ar e do Universo, aquela única conta de luz, semelhante a uma pedra preciosa que embeleza um adorno de valor incalculável, figurou, singular, dando origem a algo que dura apenas um minuto.
Porque é assim que funciona o encontro das almas. Apenas um minuto. Um único momento raro e precioso, que por ser tão raro aumenta o seu valor.
E porque aquilo que tem de acontecer, acontece, independentemente do resto.
Quem nunca teve um amor certo na hora errada? Quem nunca abdicou de um amor, em prol de um bem maior?
Na contagem incomensurável da humanidade, são muitas as histórias de amores proibidos. De relações em que a batalha, o destino, a guerra, a paixão, se revezam para se imortalizar.
Não podemos viver sem o Sol e sem a Lua, mas eles, mesmo com essa noção, também não podem viver um sem o outro.
Talvez seja por isso que existem tantos pedidos de casamento, selados com um anel de diamante.





[Texto original da autora; 
Imagem retirada da Internet, em: 



Nota: O Anel de Diamante – de Baily (Baily’s beads) – constitui uma particularidade dos eclipses solares (totais e anulares). À medida que a Lua vai cobrindo o Sol durante este tipo de eclipse, a sua topografia acidentada faz com que gotas de luz solar se destaquem, brilhando apenas em determinados lugares. Este efeito ficou conhecido com o nome do astrónomo inglês, Francis Baily (1774-1844), que explicou o fenómeno, em 1836. O “Anel de Diamante” é observável somente quando uma “conta” é visível, surgindo como uma espécie de diamante brilhante colocado num anel, igualmente brilhante, em redor da silhueta da Lua. 





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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Silenciosamente cortante



Dói-me o silêncio. 
A minha alma grita calada.
E eu luto para me libertar.

Não sei há quanto tempo estou presa.
Não sei precisar quando erradiquei o barulho, tranquei a porta e deitei a chave fora.

No meu buraco, só eu.
E o negro e o escuro e o vazio preenchido... de silêncio. 

Dói-me o silêncio. 
O silêncio a transbordar das vozes caladas que, mesmo assim, conseguem falar e fazer-me companhia.
Aquelas que têm sempre uma palavra a dizer, um palpite a acrescentar, a ilusão falaciosa de que a sua opinião conta para alguma coisa, além de provocar ricochete com o barulho que fazem e devolver-me o silêncio – esse meu amigo/inimigo, que está demasiado cheio mas não me atenua o vazio.

Dói-me o silêncio, que me cala as opiniões que sei que não vale a pena dar. As palavras, que calo e que permanecem entaladas na garganta. Os gritos surdos, que me perseguem e me pressionam para que os deixe sair.

Haverá algo mais doloroso do que um silêncio onde só mais uma nota de barulho calado o faria rebentar?

Dói-me o silêncio. 
O silêncio de um país abarrotado de palavras vãs.
De uma sociedade sedenta de frases atiradas sem nexo e sem reflexão, mas com a intenção de magoar. 

O meu silêncio é dor.
A minha alma grita calada.
E eu luto, ineficazmente, para me libertar. 

Dói-me o silêncio. 
O silêncio que sou.
O silêncio que me tornou num alguém passivo, quando a atividade frenética me levou a um ponto sem retorno.

Dói-me o silêncio. 
A minha alma grita calada.
E eu luto para me libertar.




[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]




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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Plenitude




Ser plena, é estar sozinha. Saber o valor da minha própria companhia. Querer-me, como quero os meus. Guiar-me, qual bússola certeira, por um caminho nem sempre reto, mas de aprendizagem, chamado “Vida”.
Ser plena, é saber o momento certo de parar. É alargar as amarras que me prendem cegamente, que me tapam a luz e que me fazem render a um alguém que não sou.
Ser plena, é observar-me ao espelho e saber aceitar o que ele me devolve. É acolher os fantasmas do passado, com o mesmo empenho com que planeio o futuro, mesmo sabendo que todos os projetos podem sofrer o cruel embalo da realidade.
A plenitude de quem sou, não se mede pelo que ficou pelo caminho, pelo que deixei para trás contra a minha vontade, pelo que tentei reter e que me escapou, inevitavelmente, por entre os dedos. A plenitude que me define, ergue-se juntamente com as vezes em que me levanto depois de cair, com os momentos em que decido (e consigo!) continuar em frente mesmo que haja pedras no caminho, com as vezes em que gritei “Basta!” e tive a coragem de dar um murro na mesa e deixar o meu lugar à disposição…
Ser plena, é estar sozinha, mas acompanhada por quem me puxa a mão e segue comigo. É saber sorrir todos os dias, ainda que a escuridão teime em aparecer. É vencer as batalhas, derrubar os próprios tombos e amparar as quedas, quando estas me tentam atirar ao chão.
Ser plena, é relativizar o extremamente complicado e exacerbar o puramente simples, tendo a sensibilidade de perceber que são os pequenos detalhes que fazem a diferença – e que mais importância têm!
Ser plena, é ser eu! Com todos os defeitos, limites e falhas. Com todas as virtudes, vitórias e triunfos.
Pois só quem se sente completo, com tudo o que foi, é, e se prepara para ser, pode acreditar que ainda há saída, num mundo onde é cada vez mais difícil esperar seja o que for.



Nádia Carnide Pimenta


[Texto e imagem originais da autora]


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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Alma de papel




Tenho saudades de me sentar a ler um livro no Parque da Matriz. Saudades de receber o sol na cara – que me aquece mais do que a pele – enquanto a sua luz incide nas páginas que, muito mais do que povoar sonhos, me retornam à vida, nos dias em que é preciso coragem para desbravar caminho e eu não a consigo encontrar. A natureza recarrega-me as baterias, fazendo de mim um painel solar de escrita e de leitura.
Escrevi muitas vezes ao ar livre. Quem me conhece bem, sabe que a minha imagem de marca foi, durante anos, ter a companhia de um caderno com a cara da Pocahontas na capa e uma caneta na mão, para onde quer que fosse. Eu defendo que a inspiração está em todos os lugares e tento, em cada livro que escrevo, criar personagens que desfiem o caudal das relações humanas. Porque defendo, a par e passo, que a literatura cria conexões entre as pessoas e que estamos todos mais próximos uns dos outros do que pensamos. Gosto de pensar que se eu própria me consegui ajudar com as minhas palavras, por que não existir a possibilidade de quem as ler se identificar também?
Não sei se sabem, mas o meu ponto fraco é ter uma alma feita de papel.
E não me interpretem de modo errado! Com isto, não quero dar a entender que a parte mais profunda de mim se pode desfazer a qualquer instante, que é frágil ou demasiado suscetível a máculas, por ser deste material aparentemente tão etéreo.
Quando digo que a minha alma é de papel, quero dizer precisamente o contrário! Quero explicitar como ela é forte, como se renova com regularidade de cada vez que lê ou escreve e como é capaz de enfrentar as maiores batalhas e devolver ao exterior o que me tenta cortar sem, de facto, me atingir.
Ainda assim, não deixa de ser o meu ponto fraco e, talvez, o de todos os escritores – de verdade.
Ter uma alma de papel pode significar que não vivemos sem passar precisamente para o papel o que nos atormenta, o que nos faz felizes, o que nos confunde, o que nos acerta o trajeto... É como se fosse a medicação que nos atenua uma doença crónica, é como um vício ou uma droga.
Ser de papel significa muitas coisas. Entre elas, que uma folha em branco tem sempre espaço para escrever, seja para desabafar com a ajuda da caneta o que o coração não consegue estancar por si só, seja para criar novas histórias que tornem os dias de alguém mais leves, como acontece comigo de cada vez que leio um livro e me embrenho nele para me esquecer do que me rouba a sanidade e exponencia o stress.
Sim, eu sou daquelas pessoas cujo nome próprio poderia ser facilmente substituído por “papel”, “livro”, “página” ou “história”. Tenho uma lista interminável de títulos que quero comprar e ler, uma coleção infinita de marcadores e muitas estantes organizadas de acordo com os meus próprios critérios. Cheiro o interior de cada obra que me vem parar às mãos, leio tudo de fio a pavio – ficha técnica e agradecimentos, incluídos. Gosto de sentir a gramagem do papel, de saber como soa a sua textura ao toque, de ver o seu efeito na luz e na sombra e de abrir o livro ao acaso, apenas para encontrar uma frase que me deixe a pensar e a refletir. Antigamente, tinha uma espécie de ritual com cada livro que lia; criava um cenário adequado à história e depois colocava o livro como objeto de destaque, antes de tirar uma fotografia.
No que toca a escrever, tenho imensas ideias e histórias começadas, ainda sem meio, mas sempre com fim. A minha cabeça é um turbilhão, porque o meu peito guarda tudo, até transbordar. Sou um verdadeiro ferro-velho de invenções, todas elas agarradas ao papel e à caneta. Todas elas com uma razão e um propósito, mas mais importante do que tudo, todas elas com sentimento!
Há magia nas palavras de quem escreve, de quem coloca tudo de si na criação de algo inato e inédito, com a finalidade de o partilhar com o mundo. Há magia em quem lê, no que consegue formar na sua mente ao absorver as frases desenroladas em cada página, no que absorve de cada mensagem que o livro teima em transmitir.
Escrever não é uma moda. Não é uma escolha, como decidir a cor de uma peça de roupa ou o sabor de um gelado. Escrever pressupõe intenção, mas acima de tudo alma. Quem escreve, escreve-o porque a sua criatividade lhe grita para transmitir no papel o que a sua mente não consegue guardar para si. Há quem escreva como uma forma de terapia, de autoconhecimento. Há quem escreva para mitigar a mágoa ou para ajudar alguém. Há quem escreva para se libertar e há quem escreva por muitos outros e infinitos motivos… Mas há uma coisa que todos os escritores têm em comum: todos eles escrevem com alma. E todos eles têm uma alma de papel.
E, neste momento da minha vida, no presente da nossa sociedade, há algo que me assusta muito mais do que qualquer outra coisa. Que, num mundo onde a fachada é a indumentária diária, a pureza e a sinceridade da escrita (que contém tanto dentro do seu “simples” significado) se torne também num embuste movido a vontades, caprichos, egos e popularidade.
Pensem comigo: porque é que um artigo feito à mão é mais caro do que um artigo criado por uma produção em massa? Pensem novamente comigo: os livros escritos por Inteligência Artificial poderão ser equiparados aos livros escritos por alguém que deposita no papel tudo o que a mente e o coração lhe dita?
Qual a solução? O que há a fazer?
Onde fica a pureza da alma de quem escreve sem escrever? Para onde vai o conceito de humanidade, quando se substitui as palavras ditadas pela mente e desenhadas pela caneta, por frases cuspidas de uma máquina, que não pensou, não sentiu, enfim, não criou?
Há magia maior, ou verdade maior, do que chorar com as personagens, do que lhes emprestar as nossas lágrimas? Do que sentir o que elas sentem, do que beber as suas mágoas, do que exultar os seus sorrisos e do que percorrer o mesmo caminho que elas percorrem (e que, muitas vezes, é o nosso)? Há algo mais louvável do que um autor que partilha a sua história, colocando muitas vezes a sua vida, a sua personalidade, as suas mágoas e vitórias a nu?
Dizem os críticos e os entendidos que, daqui a algum tempo, não vamos ser capazes de distinguir os livros escritos por IA dos escritos por mão humana. Quer isto equiparar-se às relações de hoje em dia? À fachada em que vivemos a nossa rotina? De como aparecemos a sorrir em público e nas redes sociais e de como nos matamos no silêncio das quatro paredes, quando temos apenas o (des)prazer da nossa companhia?
Pode isto assemelhar-se às máscaras que se usam todos os dias para se formar um protótipo de sonho e modelo a seguir, quando por dentro sangramos memórias, calamos traumas, relegamos para segundo plano o eco do que um dia fomos ou quisemos verdadeiramente ser, e que nos impede de nos olharmos ao espelho?
Pensem novamente comigo: será assim tão difícil fazer a distinção? Ou será apenas uma questão de observar com atenção, de ler com propósito, de sentir e procurar o sentido, a profundidade e o sentimento, escondido nas entrelinhas? Ou, neste caso, a falta dele… As explicações curtas e sem detalhe, os pormenores em falta, a falta de emoção que os verdadeiros escritores colocam em cada parágrafo, os caminhos e as possibilidades ao invés do atalho que conduz rapidamente para o final… 
Talvez a minha alma de papel seja realmente fraca, incompatível com a evolução distorcida dos tempos que correm e que não me permitem acompanhar esse caminho.
Ainda assim, não o lamento. Porque não sei agir de outra maneira, nem ser outra coisa. Como preciso do ar para respirar, preciso da escrita para me purgar e viver, preciso de ler para me alimentar e para ganhar a esperança que vejo escapar por entre os dedos, qual ampulheta escoando a areia sem piedade.
Sim, a minha alma é feita de papel e, em vez de o renegar, sinto-me abençoada por isso.



Nádia Carnide Pimenta


[Texto original da autora; Fotografia de Luís Rangel]


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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Cair na real



Olhei para trás, a imaginar o que não tive, o que não fui e o que não aconteceu. 
Acho que não há nada pior, nem mais extenuante, do que perder tempo com o que nunca foi, nem nunca será.

Um rol de questões assalta-me a cabeça:
“Porque é que não permaneci, em vez de continuar em frente?”
“Porque é que não tentei mais uma vez, em vez de cortar e mudar o rumo?”
“Porque é que não chorei novamente até quase sufocar e, ao invés, decidi sorrir, mesmo com a alma a arder e o coração em carne viva?”

Talvez a resposta seja simples:
Porque aprendi a navegar (ainda que a custo) na senda do amor-próprio.

Não há nada que custe a nossa paz.

Mesmo as “pessoas certas”, os “amores apaixonantes”, os “melhores amigos” e os “familiares dedicados”. 
Mesmo a tradição, o valor ou o sangue. 
Nada, nem ninguém. 

Onde não há paz, não há amor. Onde não há transparência, não pode haver estabilidade. 
Não são as metades que fazem o todo. O que é inteiro é que não precisa de se dividir.

E é esta a (dura) realidade. 

Fiz das tripas coração para a reconhecer e aceitar. E, agora que a abracei, não quero outra coisa.
Protejo-me no meu casulo, porque assim fico mais forte. Como um cavaleiro reluzente com escudo e armadura, blindo-me ao que me esgota a energia, em vez de a renovar.
E assim, ganho mais tempo. 

Tempo para viver o que ainda não vivi, mas que pode ser vivido...

O ontem já não se traduz em ameaça. O futuro é um espaço em branco.
Quem foi, já não está. Quem está por vir, que feche a porta quando chegar.

Eu encontro-me no hoje e é nele que tenho de me focar, sabendo que o agora sou eu e que eu é que tenho a chave para decidir se tranco o que já não me acrescenta, ou se o solto com a brisa da manhã…




[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]




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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Pela primeira vez



É incrível e mágico testemunhar como uma criança vê as coisas pela primeira vez. E, quando digo isto, refiro-me a ver, mesmo. Ver, com sentido, propósito e até com curiosidade e reverência, de uma forma que nos faz debruçar a pensar sobre isto. É aquela velha máxima cliché: quantas vezes olhamos para as coisas sem, de facto, as ver?
Tenho aprendido muito com o meu filho. Todos os dias. A toda a hora. Declaro isto muitas vezes e sei que me torno repetitiva, talvez, na maior parte delas, mas a verdade é que o meu filho me salvou de cair no abismo.
Antes de ficar grávida, passei por uma fase em que me sentia, literalmente, na corda bamba. Vivia para o trabalho, desabafava na escrita e fechava-me em casa, fazendo um esforço enorme quando tinha de sair e conviver com alguém. Depois de muitas desilusões, começava a perder a esperança, custava-me confiar em novas pessoas, porque quase todas as que já estavam na minha vida, ou que partiram sem aviso mas com consciência dessa escolha, tinham quebrado a plena confiança que lhes ofereci.
Mas depois chegou o Simão. "Simão – aquele que ouve", como um dos subcapítulos do meu O Vento Sabe Quem Eu Sou.
Aos poucos, ele fez-me desacelerar, deixar de viver em piloto automático. Devolveu-me o propósito, renovou-me a esperança e, sem dúvida, a inspiração. Fiz coisas que jurei a mim mesma nunca mais fazer. E parei de fazer outras, que comprometiam o meu tempo e, principalmente, a minha sanidade.
Decidi dar uma segunda oportunidade a quem, por sua vez, tinha decidido ficar pelo caminho. Enchi-me de coragem e enfrentei os meus medos e inseguranças. Refiz-me, qual Fénix, para o receber e obriguei-me a pensar positivo, apesar do diagnóstico imediato de uma gravidez de risco.
Ainda na minha barriga fomos criando uma ligação forte, pura e inexplicável. Quando nasceu, o Simão tornou-se o centro da minha vida. Foi um lutador desde o seu primeiro fôlego, mostrou a fibra de que é feito e a sua força de viver. E foi, precisamente, desde o seu primeiro minuto de vida que eu percebi como ele é sensível, observador, astuto e perspicaz. Claro que tem os seus defeitos, como toda a gente. Herdou a teimosia, sobretudo (e dos dois progenitores, claro!). Mas é completo e, para mim, aos meus olhos, mais do que isso, é completamente perfeito!
Adoro ver a maneira como ele se empenha no que faz, a sua persistência e o facto de não desistir quando descobre um novo jogo ou brincadeira. Absorve tudo à sua volta e eu (re)descubro com ele tudo aquilo que achava que já compreendia.
Que cada detalhe tem um significado incomensurável. Que o sabor de um raio de sol é tão importante quanto o da comida que temos na mesa e que, muitas das vezes, comemos apenas porque tem de ser. Que um prato de quadradinhos de queijo e puffs de milho pode facilmente transformar-se num bando de lagartinhas saltitantes e, acima de tudo, que mesmo nos dias cinzentos (ou particularmente nesses) pode-se pintar com essa cor no papel e desenhar o infinito.
O Simão ensina-me a ver as coisas com outra perspetiva, mas especialmente com olhos de ver. Ele ensina-me, todos os dias, a ver as coisas pela primeira vez!
Ele gosta de livros, de jogar à bola, de inventar as suas próprias brincadeiras ao ar livre. Sabe as cores, os números e as letras. E está na fase "papagaio de repetição". Adora crianças, "cocuate" (leia-se: chocolate), morangos, iogurte e comida, no geral. É fã do seu paninho azul, do galo Bartolinho e de todos os membros da Patrulha Pata, comandada pelo “Ryder-Senhor”. É o meu ser de luz, porque ilumina a minha vida e a de todos os que o rodeiam.
Ele tem a inocência própria de uma criança feliz e a alma de quem já viveu muitas vidas. E eu acredito que isso é meio caminho andado para triunfar na sua.
Às vezes, quando penso nisto, tendo a acreditar também eu própria em vidas passadas e em reencarnação. Não sei o que fui ou serei nas outras… Mas, tal como nesta, escolheria ser mãe do Simão em todas elas, ainda que saiba que foi ele quem me escolheu a mim.
 

P. S – As crianças são os seres mais puros e sábios que existem. Todas as crianças têm direito a ser felizes e livres. A brincar, a aprender, a sorrir. Que nunca, em circunstância alguma, nos esqueçamos disto! Todos nós já fomos crianças. E é assim que a humanidade começa…



Nádia Carnide Pimenta


[Texto e imagem originais da autora]



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