quarta-feira, 20 de maio de 2026

A minha religião



Na folha em branco surgem palavras que há muito lutavam para sair. Frases coerentes, outras nem tanto, conforme o contexto ou o estado de espírito.
Parágrafos soltos, mas completos, vertidos de uma alma que, gota a gota, se foi desmembrando. É só no papel que ela se remenda, como se este fosse a agulha, e a linha a caneta, que a coseria para se voltar a parecer com algo, mais ou menos, inteiro.
E, assim, ditando para a página virgem o que a minha alma, por sua vez, me dita, nasceu a minha forma de religião. Porque são as palavras a minha oração secreta, o pedido desesperado do eco de mim e da sombra do que um dia fui.
É nos meus cadernos que guardo a luz, que me ajuda a ver a iluminação no caminho. É nas incontáveis páginas ­– de linhas ou lisas, tanto faz!, mas todas preenchidas de fio a pavio – que eu vejo a Bíblia que me leva até Ele.
Não sei se é blasfémia, mas posso com toda a certeza afirmar que é a sinceridade mais pura que me cruza o peito e penetra no ponto mais profundo de quem sou. A escrita, mais do que uma crença, é o sangue que me corre nas veias, as vitaminas que me equilibram, o alimento que me mantém minimamente saudável e as canadianas que me auxiliam ao andar.
A escrita é o meu deus! O meu credo. A minha saída nos dias de escuridão e o meu antidepressivo natural, que me faz enfrentar a claridade que a solidão da noite teima em fazer aparecer, quando são horas de me deitar.
Dela, não peço muito! Apenas que permaneça junto a mim, como uma mãe eterna, movida pela constância que eu me habituei, tanto a dar, como a receber.
A ela, peço-lhe tudo! Que me guie, que me oriente, que me elucide e que me faça perceber que não tenho de ficar onde já não faz sentido estar.
Escrever é uma forma de vida. É o copo de redenção que tomo juntamente com o primeiro café da manhã. É o que me impede de tropeçar ou, quando não o pode fazer, quem me levanta e me ajuda a recolocar no caminho.
Escrever é uma dádiva. É o que me faz acreditar na continuidade, no amanhã, no que vem depois (se este, efetivamente, chegar).
Escrever é a minha religião e eu sou-lhe completamente fiel, sabendo que a entrega é mútua.





[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]


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quarta-feira, 13 de maio de 2026

A carrinha pão de forma



Numa madrugada cinzenta de maio, eles partiram à aventura sem olhar para trás. Estava frio, nem sequer era verão, o céu prometia tempestade e o silêncio que reinava metia medo aos indecisos.
Mas eles não quiseram saber! Movidos pelo impulso (e pela coragem – verdade seja dita…), enfiaram-se na carrinha pão de forma, com meia dúzia de pertences na mochila e o resto da bagagem no coração.
Invejei-lhes a ousadia. O pragmatismo de reconhecer que estava na hora de seguir viagem, sem pensar em mais nada do que a simples necessidade de se reencontrarem.
Jovens, mas com a dose certa de maturidade, souberam dar azo aos sonhos, em vez de se afundarem na realidade dura, que provoca dor para lá dos ossos e que põe em causa os resquícios de sanidade.
Admirei-os! Largamente…
Porque eu jamais seria capaz de mudar de rumo, sem pensar no amanhã.
Eu, aquela que planeia até ao limite, aquela que aponta tudo até ao ínfimo detalhe, num papel vincado pelos nervos, só para ter a certeza de que não se esqueceu de nada.
E eles, livres como a imensidão, filhos de uma boa estrela, que os iluminou, fizeram-se simplesmente ao caminho, desapegando-se de tudo aquilo que não os acrescentava.
Quem sabe, cheguem a uma praia onde as ondas embatem nas rochas e provocam a erosão que torna as memórias dolorosas mais fáceis de suportar. Talvez se sentem lado a lado na bagageira da carrinha, com uma manta pelas costas e uma lata da bebida da verdade nas mãos, para serem testemunhas da forma como o céu se tinge no pôr do sol e de como os segredos partilhados têm a capacidade de aliviar a carga e soprar os fantasmas para longe.
Talvez descubram um campo verdejante, pejado de calma e ar puro, capaz de os acolher numa madrugada muito diferente e muito mais branda, do que aquela em que partiram, sem hesitar.
Talvez o lugar-certo seja não fazer planos para depois. Talvez a verdade esteja no amanhã não programado, que liberta o ontem que nos obrigou a ajustar a rota e a (re)aprender a navegar ao sabor da maré da vida e dos caminhos que os seus desígnios dizem ser para nós.
A dor não desaparece apenas por a ignorarmos. Mas torna-se mais fácil de enfrentar quando lhe retiramos peso. E retirar-lhe peso, talvez seja, quem sabe, somente mudar o foco.
Talvez. Quem sabe. Novamente, e sempre, a incerteza que molda as questões retóricas do Universo...
Quem me dera ser como aquelas duas almas, que ousaram partir dentro de uma carrinha pão de forma, apenas com o básico, mas empenhados em descortinar o futuro na onda do deixar-ir.
O que se poupa? A ansiedade do porvir. O suor do pensamento a mais. As batidas de um coração descompassado que mede tudo, exaustivamente, antes de agir.
Quem me dera ter uma carrinha pão de forma e a coragem de trazer para uma madrugada cinzenta o sol que sei que ainda há em mim.


Nádia Carnide Pimenta


[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]


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quarta-feira, 6 de maio de 2026

O caos que ninguém via



Entraste nos meus sonhos, sem aviso prévio, como quem bate à porta e entra sem ser convidado. À semelhança das vezes sem conta em que cometeste essa proeza meio louca e desconexa, porém certeira, penetraste todas as barreiras (pelos vistos, frágeis) que ergui ao meu redor, na esperança de me proteger do mundo e de tudo o que ele hoje inclui de cortante.
Atravessaste todas essas muralhas de papel, comprovando uma vez mais o caos que ninguém via: o emaranhado de tombos, os amontoados de arranhões, as doses de nódoas negras e as incontáveis ilusões, desfeitas como grãos de pó soprados pelo ar.
Com a tua ambiguidade peculiar, perturbaste-me um sono, jamais descansado e nunca retemperador, mostrando-me que ninguém se pode fechar em si próprio e isolar-se para sempre. Fizeste-me questionar as hipóteses e as conclusões que pensei achar para mim mesma, que me ajudaram a lidar com tudo aquilo que me parecia impossível de aceitar e, pior ainda, de compreender. Fiquei ainda mais baralhada, atolada até aos ossos em confusão, como se essa não fosse já a palavra que melhor me define.
Tu, com a tua dualidade entre o cliché infundado e o arquétipo do mistério, ensinaste-me que, quando achamos que tudo está virado do avesso, percebemos que este é composto por camadas, e que, depois de uma, outra surge, levando-nos por um labirinto que nos mostra que viver é isto: andar à deriva sem achar o caminho da saída.
Mas quando acordo do que não dormi, só me lembro do teu olhar e do teu toque onírico a roçar-me a pele e das palavras que, entre o carinho e a veemência, me sussurraste: "É no meio do caos que aprendemos a sarar."
E agora, manhã viva, céu claro, com um sol ofuscante a turvar-me a visão, quase consigo acreditar que é essa a verdade que comanda a vida dos Homens. Porque se fosse tudo fácil e banal, não haveria histórias para contar. E porque a verdade, também, é que sem ter o que escrever, eu deixaria de respirar.
E é este o caos que ninguém via, que nunca ninguém viu, à exceção de ti. Tu és a ordem, a bússola e o guia para eu lidar com a matéria, porque a energia vem por si só, quando apesar de me sentir dilacerada, colo a alma com o eco das tuas palavras, as que me disseste esta noite quando entraste, pela enésima vez, nos meus sonhos. É no meio do caos que aprendemos a sarar e é precisamente dentro desse caos que conto um número ímpar de feridas, remetidas a cicatriz. 




[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]


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quarta-feira, 29 de abril de 2026

O ritmo da minha vida



O ritmo da minha vida não se rege pelo meu ritmo cardíaco. Não acompanha, a par e passo, as batidas do meu coração. 
O ritmo da minha vida molda-se pelas rotinas do dia a dia, pelas responsabilidades a que não posso fugir, pelos minutos em que me sinto debaixo de água e em que luto para voltar à tona, em silêncio, com um sorriso plantado na cara, em jeito de espada invisível. 
A cadência que me guia os dias – e as noites – coaduna-se com os meus momentos preferidos: as horas do banho, do sono e das papas do meu filho, as descobertas que ele faz, sem que nenhum de nós o possa prever. Essa cadência que me medeia, faz ressaltar magicamente as batidas de uma música suave e alegre, sempre que as gargalhadas dele me penetram nos ouvidos, com uma melodia que nunca, jamais, algum compositor de renome ou a falácia da IA conseguirão suplantar. É ele – esse ser tão pequenino mas aos meus olhos tão pleno – quem me faz aguentar o barco e deixar-me ir, no embalo das ondas que, no fundo, são o ritmo que a minha vida me deu.
O ritmo da minha vida ergue-se muitas vezes de mãos dadas com as barreiras, que me gritam que não sou capaz de ter o jantar pronto a horas, que devia fazer mais exercício físico, ou passar um creme no corpo durante os cinco minutos que, precisamente o ritmo da minha vida, me diz que tenho disponíveis para fazer (ilusoriamente) o que eu quiser. 
As frequências que me abanam o corpo e que me aceleram o passo, não são sempre doces nem fáceis de suportar. Como tudo o que existe, no mundo e na vida, trazem um misto daquilo que a humanidade pode, deve e tem de experimentar! E eu, sabendo isto de cor e salteado, jamais poderei dizer, com certeza, que o ritmo da minha vida equivale ao meu ritmo cardíaco.
Porque as batidas do meu coração não são, e não podem ser, fiéis ao ritmo da minha vida. São demasiadas as dúvidas, regadas com mágoa, desilusão e o peso de uma culpa que talvez não seja justo, nem certo, eu carregar sozinha. O ritmo da minha vida são os copos de água que não bebo, as refeições que salto ou faço a correr, o trabalho que me põe (supostamente) a comida na mesa e que cumpro até ao limite das minhas forças, são as horas de sono que não existem e as olheiras negras e profundas, que passaram a fazer parte da minha maquilhagem habitual. São os inputs das vozes alheias – e, chego à conclusão, mais inseguras do que eu! – que me dizem que por eu estar em teletrabalho deveria ter tudo mais orientado, do que as outras mulheres e mães que percorrem o ritmo frenético do regime presencial. 
Porém, o ritmo da minha vida ainda me consegue surpreender! Porque dentro dessa cadência, muitas vezes oca, ainda há espaço para o brilho, há espaço para as histórias que leio a um ser que é um bocado de mim, para os enredos que desfio no papel dando origem a um romance, para um momento de sobriedade, nas parcas vezes em que me permito acreditar que eu basto, só por ser como sou, e que não tenho de provar nada a ninguém, a não ser a mim mesma.
Sim! É verdade que o ritmo da minha vida, por vezes, se assemelha às batidas potentes de um Techno. Mas tão de repente como me faz correr sem vista a abrandar, muda a frequência para uma balada que me toca no peito, na alma e no coração, com uma suavidade equivalente à de um amante, que não me faz questionar exaustivamente cada dia em que não sou capaz de cumprir à risca aquilo a que me propus.
Se eu me vestisse mais vezes de empatia por mim mesma, como me visto todos os dias para os outros, talvez encarasse melhor o ritmo da minha vida e ele me desse mais tréguas em vez de cabos das tormentas para dobrar. Talvez eu não perdesse tantos concertos dos passarinhos que me pousam diariamente no parapeito da janela, talvez não deixasse escapar tantos pores do sol, tingidos com as tonalidades certas e que sempre me trouxeram a inspiração. Talvez eu aproveitasse melhor a dádiva da maternidade, sem ter o peso da culpa sempre atrás de mim, a gritar-me que podia ser uma mãe melhor, uma mulher melhor, um ser humano melhor. Talvez aproveitasse melhor o bebé lindo e maravilhoso que tenho, as descobertas incríveis do rapazinho com princípios e felicidade que estou a educar. Talvez desse ao silêncio, que tantas vezes me acompanha, a verdadeira dimensão do que ele ocupa, sem nenhuma voz secundária a martelar-me o ouvido e o juízo. 
O ritmo da minha vida não se rege pelo meu ritmo cardíaco. Rege-se pelos degraus que a cada dia eu consigo subir, sabendo o valor e o brilho que há em mim, independentemente de tudo o resto.





[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]



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sábado, 8 de março de 2025

Mulheres



Mulheres que inspiram outras mulheres cumprem a sua missão no mundo.
Desde criança que a condição de ser mulher me assusta e me fascina na mesma medida. 
Sempre fui muito precoce. Abordava alguns assuntos e interessava-me por outros que não eram próprios para a minha idade. Aos quatro anos, já sabia que existiam pelo menos quatro formas de morrer: doença, acidente, velhice e suicídio (que eu descrevia como “um tiro na cabeça”). Sempre tive uma imaginação muito fértil e inventava histórias atrás de histórias. A escrita, sempre presente, manifestava-se em mim, ainda antes de eu saber escrever. Rabiscava papel atrás de papel e criava vidas e enredos, uns com coisas próprias dos sonhos e outros com base assente na realidade. Uma vez, a minha mãe foi dar comigo a entrevistar o senhor Avelino, por causa da sua dívida à Segurança Social; esta, foi uma das primeiras histórias que criei.
Porque escrever é muito mais do que o ato em si. É libertar a mente, dar asas às ideias e à criatividade e fazê-lo, especialmente, com o coração. A minha tia Antónia, irmã da minha avó Isabel, nunca soube ler nem escrever, mas escreveu, ao longo da sua vida, inúmeros poemas. Dia após dia, ano após ano. Sabia-os todos de cor! E a inspiração e o dom estavam-lhe na massa do sangue. Às vezes cruzava-se com uma pessoa na rua e fazia-lhe imediatamente um poema. Quando nos ligava, por exemplo, pela altura do Natal, chamava-nos à vez ao telefone, para dizer uma quadra a cada um... 
Escrever é muito mais do que desenhar letras no papel. Escrever é falar para e com a nossa alma, primeiro para nós e depois diretamente para a alma dos outros. É muitas vezes a escrever que encontro as respostas que preciso.
A minha mãe nunca me escondeu nada. Ainda criança, soube que poderia falar abertamente com ela e perguntar-lhe o que quisesse. Sempre me disse a verdade, da forma e com as palavras adequadas à minha faixa etária. Sempre me tratou de igual para igual, como uma pessoa com “querer” e vontades próprias. E esse é um dos seus inúmeros exemplos que eu quero seguir. Tratar os meus filhos como pessoas individuais, atendendo aos seus quereres e necessidades e guiando-os o melhor que sei. Coincidência, ou não, foi ela que me transmitiu o dom. E os genes fazem o seu trabalho da maneira mais insólita! Há uns anos, andava eu a escrever o Diamante do Sul, quando ela me mostrou um dossier que estava no sótão de casa dos meus avós e onde permanecem encerradas inúmeras coisas que ela escreveu… Qual não é o meu espanto quando vejo frases muito parecidas a algumas que fazem parte de textos meus e que escrevi, acerca de assuntos semelhantes. A vida tem uma forma muito particular de demonstrar que ninguém pode negar as ligações humanas, as origens, as raízes, o sangue e o amor.
A insegurança sempre fez parte de mim. Muitas das vezes, quando tinha medo, era perto das minhas avós que me sentia segura. Os colos das avós têm um gosto especial, elas embalam-nos e prometem-nos coisas, mesmo sem falar. Mimam-nos, fazem-nos as vontades e, nesses gestos inatos e puros, achamos força para continuar. 
A minha avó Isabel, mãe da minha mãe, foi para mim um grande exemplo. Sobretudo o de como se deve encarar a vida com otimismo e com um sorriso no rosto, mesmo nas alturas mais difíceis. Dizia-me muitas vezes, entre outras coisas, claro, duas frases, que são também grandes verdades, e que recordo continuamente, apesar de nem sempre me ser tão fácil pô-las em prática: “Sorri para a vida, que ela sorri para ti” e “Tudo tem solução, menos a morte”. 
Tive desde muito cedo a minha avó Quitéria, mãe do meu pai, como arquétipo da bondade para com os outros. Ela foi a enfermeira do meu avô Pimenta, durante muitos anos. Quando ele ficou doente e não podia comer da mesma maneira, ela comprou uma máquina especial para lhe fazer sumos de fruta. Tinha sempre os medicamentos prontos e ordenados para lhe dar. Anulou-se muitas vezes, apenas para colocar o bem dele à frente do dela.
Há ainda a minha bisavó Margarida, que tive o prazer de ter na minha vida durante doze anos. E a minha bisavó Ana Rosa, que quase todos conheciam por “Avó Ana” e que eu conheço apenas por fotografias e pelas histórias que a minha mãe me conta. Admiro-as por terem sido quem foram, mas principalmente por terem sobrevivido à perda de filhos, à partida mais contranatura que a vida pode pregar. Como é que uma mãe continua a viver, depois da morte de um filho? Não sei e espero nunca vir a saber! O certo é que estas mulheres continuaram em frente e seguiram até a vida as levar para o lugar onde, espero, estejam finalmente em paz, reunidas com os filhos que perderam e com os que, entretanto, também partiram deste mundo.
Todas estas mulheres que descrevi até aqui foram (e são) referências para mim, sobretudo nos meus primeiros anos de vida. Em bebé, em menina, em mulher… em todos os estágios que até agora vivi, elas estiveram lá.
Apesar de saber que podia confiar em todas, foi com as minhas primas mais velhas que me senti verdadeiramente à vontade para questionar e perceber a condição que é ser mulher. 
Aos três anos, só queria um dia vir a ter um vestido de noiva como o da minha prima Sónia; tinha a certeza absoluta que algures no futuro me iria casar e viver um conto de fadas, como o dela. 
Por volta dos quatro ou cinco, senti-me super importante quando a minha madrinha me pintou os lábios com o batom do cieiro, ou como ela carinhosamente me dizia, "o batom das crianças". Ela levava-me a montes de sítios originais, fazíamos imensas actividades e programas que muitas crianças não fazem. Foi com ela que fui pela primeira vez ao cinema, que fiz pizza caseira e que andei de patins – com os patins da Barbie que ela me ofereceu. 
Um pouco mais tarde, os meus ídolos foram as minhas primas Raquel e Inês. Tentava copiá-las em tudo, ficava fascinada com o que me contavam das suas vidas e da forma como o faziam, confiando em mim que, ao pé delas, não passava de uma miúda. 
Ao longo do tempo, a minha prima Ana Margarida, mais velha do que eu apenas três anos, foi a companheira de muitos momentos, fazendo-me acreditar que a amizade pode ser duradora e que nela cabem todos os sonhos, apesar dos cortes que a vida nos faz. Ou talvez mesmo por causa disso, quando saramos as feridas e percebemos que por trás de todas as mágoas – que muitas vezes não são nossas – o sol ainda nascerá amanhã e há muito em comum por descobrir. 
Até aos doze anos fui filha única e via nas minhas primas uma espécie de irmãs mais velhas. Foram elas que me ensinaram muita coisa. Foi nelas que me revi e que delas extraí muitos exemplos. Elas nunca me fizeram sentir “a pequenina” ou “a mais nova”. Trataram-me sempre por igual, falavam comigo sobre tudo, desde moda, a escola, a rapazes e a amigas. 
Mais tarde, sei que também eu fui exemplo para as minhas primas mais novas – a Rafaela, a Marisa, a Ana Rita, a Madalena – e para a minha irmã. A minha prima Daniela disse-me há uns anos que tinha muito orgulho em mim. A Ana Isabel, que não é minha prima mas que eu considero como tal, porque a família de coração é tão ou mais importante do que a de sangue, também me revelou que vê em mim um modelo de mulher; lembro-me muito bem quando ela me confessou que me achou super inteligente porque lhe expliquei uma vez que a palavra “Verão” se escrevia “Verão” e não “Vrão”; precisamente pela mulher em que ela se está a tornar, é que a escolhi para madrinha do meu filho. Senti uma enorme responsabilidade quando a minha irmã, por volta dos três ou quatro anos, me disse: “Obrigada por seres minha irmã!”; nessa simples frase percebi que
 “agora eu também era um exemplo para alguém.
Ao longo da minha vida, tive muitas mulheres que me inspiraram e desejei, em alguma altura do caminho, ser como elas.
Porque, a cada dia, estamos sempre a aprender. Sei que, de uma maneira geral e convicções à parte, os homens têm a vida facilitada em relação às mulheres, sei que na nossa sociedade ainda é muito difícil – e, por vezes, cruel – ser mulher. Mas eu não troco por nada ser o que sou. Ser quem sou. Ser a mulher que sou.
Hoje, agradeço a todas as mulheres que me inspiram e inspiraram. Porque foram elas que em grande parte contribuíram para que eu chegasse até aqui. Para que percebesse que cada mulher é especial e que é o traço de individualidade que nos distingue o que nos torna exatamente assim: únicas e capazes de inspirar alguém.
Pequeninas ou grandes. Mais novas ou mais velhas. Da família de sangue ou da família de coração. Que conheço de vista ou que conheço mais a fundo. Amigas, vizinhas, mães, avós, tias, primas, irmãs… Que ainda estão ou que já partiram. Do norte, do centro, do sul ou das ilhas. Todas elas têm um lugar especial no meu coração.
A Nucha, a Isabel, a Quitéria, a Margarida, a Ana Rosa, a Antónia, a Celeste, a Sónia, a Inês, a Raquel, a Ana Margarida, as Marisas, a Rafaela, a Daniela, a Graciela, a Ana Isabel, a Sofia, a Palmira, a Cidália, a Vera, a Soraia, a Bruna, a Andreia, a Selma, a Manuela, a Natália, a Ana Mata, a Jesus, a Telma, a Rosa, a Ana Ferreira, a Paula Lourenço... Sei que apesar de enumerar apenas algumas, há muitas mais.
Não sei se elas sabem que, quase todas, de uma maneira ou de outra, tiveram um peso importante na minha vida e na minha formação enquanto mulher. 
As mulheres são os seres mais especiais que existem. São elas que geram a vida e dão vida à vida que eu conheço.

Nota: Este texto é um excerto do meu novo livro, O Vento Sabe Quem Eu Sou. Para adquirir um exemplar (da 2.ª edição), basta enviar um email para pimenta.nicp@gmail.com




[Imagem retirada da Internet]







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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Joaninha voa, voa...


 
Há uns dias, de manhã, quando acordei e me preparei para subir o estore da janela do quarto, deparei-me com uma joaninha entre a parede e o vidro. Caminhava cima abaixo, sem saber para onde ir, naquele mar sem fim que era a brancura da parede e a possibilidade de resvalar para aquele translúcido multicor, que era a extensão do vidro onde a claridade de mais um dia se refletia.
Corri a pegar no Simão ao colo, para que ele observasse o bichinho. Tinha a certeza que era a primeira vez que via aquele espécime, nos seus dez meses de idade.
Esta é uma das muitas dádivas de se ser pai ou mãe. Acompanhar um ser humano que está a descobrir o mundo, a ver e apreender, pela primeira vez, aquilo que para nós é banal e que, exatamente por isso, nos passa ao lado. A maneira como ele olhou para a joaninha, como observou com curiosidade e genuíno interesse o trajeto que ela teimava em fazer, trouxe-me a esperança renovada.
Cada dia na companhia do meu filho é assim. Mais um balde de água que enche o poço. A reserva que eu preciso para continuar, andar, viver, sem ser em piloto automático, sem ser "só porque sim".
No meu primeiro livro, o Diamante do Sul, escrevi que viver é fácil, nós é que complicamos. E cada vez estou mais convencida disso!
Desde esse dia, tenho-me obrigado a pensar positivo. A educar o pensamento, sempre que a mente quer rebelar-se e seguir a rota contrária, aquela que tantos anos, que dias a fio, tomou como certa.
Tenho, a pouco e pouco, trabalhado para chegar onde quero, para atingir os meus objetivos, mesmo que eles não sejam compreendidos por mais ninguém, além de mim. E, no fim de cada noite, quando deito a cabeça sobre a almofada e faço o balanço do dia, sinto orgulho em vez de angústia. Sinto paz (somente, paz!) por ter atingido mais um degrau nesta senda do amor-próprio.
Hoje, sem prever, enquanto imprimia uns documentos no meu escritório, olhei por reflexo para o chão e vi outra joaninha (a mesma, quem sabe?!). Sorri para o vazio. Sempre fui dada a superstições, sinais, significados por trás da banalidade de uma mera coincidência. Acredito que nada acontece por acaso e, mais uma vez, a vida trouxe-me essa confirmação.
À semelhança do que tinha feito no outro dia, peguei nela com cuidado, abri o vidro e atirei-a lá para fora, para o quintal.
Liberdade, era tudo o que ela precisava. E eu também...




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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

O poder da falha


 

Às vezes, falho. Porque eu não sou perfeita. Pois não?!
Isso daria imenso trabalho, teria de ser, inclusiva e efetivamente, trabalhado ao pormenor e demoraria uma vida (e outra, e mais outra, e outra ainda, se não tivéssemos apenas uma).
A perfeição não existe. É esta a frase corrida, que ouço correr, nos dias que correm (e nos que correram, porque da maneira como corre o tempo e a vida – esta única que temos – misturo passado e presente, sabendo de sobremaneira que o futuro também será uma inequívoca correria).
Mas, afinal, o que é a perfeição? Sabemos que ela não existe, mas quantas vezes largamos da boca a exclamação “Está perfeito!”, “É perfeito!” Quando um bebé nasce, “É perfeito!” Quando bebemos um vinho de excelente categoria, “É perfeito!” Quando acabamos de confecionar aquele prato complicado e provamos a primeira garfada, “Está perfeito!” Afinal, a perfeição existe ou não?
Aqui há uns anos, afirmava a pés juntos – e cheguei a escrevê-lo num outro texto – que a perfeição existe, sim, e leva tempo! Mas falar de tempo não vale a pena, porque perderíamos imenso, não chegando a nenhuma conclusão. Pelo menos, a uma conclusão que fosse válida para toda a gente, porque precisamente para toda a gente o significado de perfeição (e de tantas outras coisas, importantes e menos importantes) varia. Porque somos um todo, mas um todo diversificado e não poderá ser isso, também, apelidado de perfeito?
Às vezes, falho. Para não dizer que falho muito. A todo o instante. E que isso é normal. Que, talvez, seja mesmo perfeitamente normal.
A vida é uma coisa complexa. Ou então somos nós que complicamos aquilo que é simples. Que, por ser de facto tão simples, não conseguimos compreender ou aceitar de ânimo leve.
Afinal, a perfeição existe. E esta é uma afirmação! Não leva o “mas”, porque já não há indecisão. Pelo menos, enquanto escrevo estas palavras. Quando as for ler, quando for reler o texto inteiro, provavelmente questionar-me-ei um par de vezes, ou mais, se a perfeição existe, ou não.
A única certeza que continuo a ter é que falho. Talvez mais do que apenas “às vezes”. E é tão perfeito falhar... Porque só falhando é que conseguimos ter uma vida perfeita. Só falhando, é que se consegue ser perfeito. Talvez perfeito e imperfeito sejam sinónimos em vez de contrários. O zé-povinho não diz que os opostos se atraem?
Perfeitamente falhando, a cada dia que passa, posso respirar de alívio. Afinal, a perfeição existe. E, contrariamente ao que afirmei um dia, não leva tempo. Leva uma vida inteira. Uma vida inteira de falhanços, de recomeços, de quedas e vezes sem conta a levantar.
Hoje, respiro de alívio. É perfeito! Eu falho. E é por falhar que sou perfeita!






[Imagem retirada da Internet]




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