Quando nascemos, a única certeza que trazemos connosco é a de que, um dia, iremos partir. Conscientes ou inconscientes disso, seja pessoa, planta ou animal, vai existir um momento marcado no calendário invisível do Universo – e que nós não sabemos quando – em que passaremos a ser apenas uma recordação. Como eu escrevi, num outro texto (e que, curiosamente, está inserido num dos meus livros): um dia “num pequeno assobio de vento, seremos apenas uma mera recordação na memória dos que ainda são solidez.”
Desde muito nova que lido com a perda. Perder alguém não significa necessariamente que essa pessoa parou de respirar ou que deixou este mundo. Por vezes (demasiadas até, e mais do que gostaríamos), há pessoas que saem da nossa vida, mas continuam a existir nesta dimensão terrena. Apenas decidem ir embora ou chegam à conclusão de que não se encaixam no que somos.
E depois, há a perda de objetos, de identidade, de seres vivos que, tal como os seres humanos, partem também...
A primeira vez que perdi um animal, tinha três ou quatro anos. Chamava-se Toby e era o cão do senhor Anselmo, na altura meu senhorio. Na ingenuidade própria da infância, tornou-se o meu companheiro. Ficava com ele à porta de casa, sentada no quintal. Ele deitava-se ao meu lado, enquanto eu brincava às casinhas. Posso dizer, com firmeza, que ele foi um dos meus primeiros amigos.
Um dia, desapareceu. Fugiu de casa e nunca mais voltou…
Um pouco mais tarde, com meia década de vida, fui mordida por o cão de uns vizinhos e, com esse pequeno acidente, chegou o medo dos cães. De cada vez que um cão se cruzava comigo na rua, eu começava a transpirar, o coração acelerava e parecia que o espaço à minha volta diminuía. Custava-me, porque achava os cães divertidos, sobretudo os Labradores e os Golden Retreviers – as raças que sempre achei mais bonitas. Mas era algo que eu simplesmente não conseguia controlar, como todas as fobias que nos assolam e das quais não temos culpa.
Contudo, a vida tem uma forma mágica e estranha de nos surpreender.
Aos vinte e dois anos, quando conheci o André, conheci também a Kira, a sua cadelinha. Um Bulldog francês, cheio de músculo, carinho e energia.
E, precisamente porque a vida dá muitas voltas e é a responsável pelos milagres do mundo, desenvolvemos uma amizade improvável. Passo a passo, sem eu dar conta, a Kira foi-me conquistando. Aos poucos, esfregava-se na minha perna, sem que eu desse um salto. Sentava-se aos meus pés, sem que o meu coração acelerasse… Um dia, quando dei por mim, estava com ela ao colo, a fazer-lhe festas!
Costumava esperar pelo André ao sábado à noite, no seu quarto de solteiro e era a Kira quem me fazia companhia. Levava os apontamentos para estudar para os exames da universidade e ia debitando a matéria, com ela como audiência. Quando comecei a ter os primeiros sintomas da Doença de Behçet, quando as dores nas costas começaram a levar a melhor, a Kira aproximava-se de mim e começava a ganir, dizendo-me à sua maneira: “Estou aqui, não estás sozinha!”
Mordia-me os atacadores dos ténis, para não me deixar ir embora e arranhava a porta da casa de banho quando eu estava lá dentro, permanecendo fielmente do outro lado, até eu sair. No Natal de 2017, na minha lista de presentes a comprar, o nome dela estava lá – ofereci-lhe três bolas de ténis que duraram vinte minutos e ouvi um raspanete do André, “Eu avisei-te!”
A Kira foi especial e duvido que algum dia vá encontrar um cão igual a ela. Neste momento, enquanto escrevo estas palavras, choro. São lágrimas de gratidão. Porque a Kira fez-me perceber que a melhor forma de destruirmos o medo é enfrentá-lo. E, com ela, eu desfiz um bocadinho a barreira do meu medo pelos cães.
Agora, a Kira foi correr sem destino, foi farejar o mundo que teimam em dizer que é melhor do que o nosso, embora ninguém saiba de sua justiça se isso é verdade. Quero acreditar que sim. Porque a única certeza que temos ao longo deste caminho, nem sempre justo e nada fácil de compreender, é a de que um dia já não haverá mais dia.
A sua fotografia permanece imortalizada na minha fita de fim de curso e a sensação do seu peso no meu colo, ficou gravada no meu coração. Não admito que alguém me diga que não gosto de cães. Porque eu gostei e gostarei sempre da Kira! Como uma fiel amiga, uma perfeita confidente e o medicamento que me atenuou o medo pelos seus amigos patudos.
Assim como há pessoas que nos assustam e outras que nos causam empatia, eu e a Kira tivemos uma ligação empática e completa, que ninguém pode negar. Ontem à noite, o André disse-me: “Ela gostava muito de ti!” e eu sei que é verdade.
Enquanto eu tiver memória, a Kira estará aqui. Como uma recordação bonita no que resta da minha solidez, já tão calejada de perdas. E, por isso, eu não a perdi. Nós não a perdemos.
Perder, não é deixar de estar fisicamente, é apagar da memória. E enquanto a minha permanecer, ela também permanecerá…
A Kira, foi o meu acaso mais bonito.
Desde muito nova que lido com a perda. Perder alguém não significa necessariamente que essa pessoa parou de respirar ou que deixou este mundo. Por vezes (demasiadas até, e mais do que gostaríamos), há pessoas que saem da nossa vida, mas continuam a existir nesta dimensão terrena. Apenas decidem ir embora ou chegam à conclusão de que não se encaixam no que somos.
E depois, há a perda de objetos, de identidade, de seres vivos que, tal como os seres humanos, partem também...
A primeira vez que perdi um animal, tinha três ou quatro anos. Chamava-se Toby e era o cão do senhor Anselmo, na altura meu senhorio. Na ingenuidade própria da infância, tornou-se o meu companheiro. Ficava com ele à porta de casa, sentada no quintal. Ele deitava-se ao meu lado, enquanto eu brincava às casinhas. Posso dizer, com firmeza, que ele foi um dos meus primeiros amigos.
Um dia, desapareceu. Fugiu de casa e nunca mais voltou…
Um pouco mais tarde, com meia década de vida, fui mordida por o cão de uns vizinhos e, com esse pequeno acidente, chegou o medo dos cães. De cada vez que um cão se cruzava comigo na rua, eu começava a transpirar, o coração acelerava e parecia que o espaço à minha volta diminuía. Custava-me, porque achava os cães divertidos, sobretudo os Labradores e os Golden Retreviers – as raças que sempre achei mais bonitas. Mas era algo que eu simplesmente não conseguia controlar, como todas as fobias que nos assolam e das quais não temos culpa.
Contudo, a vida tem uma forma mágica e estranha de nos surpreender.
Aos vinte e dois anos, quando conheci o André, conheci também a Kira, a sua cadelinha. Um Bulldog francês, cheio de músculo, carinho e energia.
E, precisamente porque a vida dá muitas voltas e é a responsável pelos milagres do mundo, desenvolvemos uma amizade improvável. Passo a passo, sem eu dar conta, a Kira foi-me conquistando. Aos poucos, esfregava-se na minha perna, sem que eu desse um salto. Sentava-se aos meus pés, sem que o meu coração acelerasse… Um dia, quando dei por mim, estava com ela ao colo, a fazer-lhe festas!
Costumava esperar pelo André ao sábado à noite, no seu quarto de solteiro e era a Kira quem me fazia companhia. Levava os apontamentos para estudar para os exames da universidade e ia debitando a matéria, com ela como audiência. Quando comecei a ter os primeiros sintomas da Doença de Behçet, quando as dores nas costas começaram a levar a melhor, a Kira aproximava-se de mim e começava a ganir, dizendo-me à sua maneira: “Estou aqui, não estás sozinha!”
Mordia-me os atacadores dos ténis, para não me deixar ir embora e arranhava a porta da casa de banho quando eu estava lá dentro, permanecendo fielmente do outro lado, até eu sair. No Natal de 2017, na minha lista de presentes a comprar, o nome dela estava lá – ofereci-lhe três bolas de ténis que duraram vinte minutos e ouvi um raspanete do André, “Eu avisei-te!”
A Kira foi especial e duvido que algum dia vá encontrar um cão igual a ela. Neste momento, enquanto escrevo estas palavras, choro. São lágrimas de gratidão. Porque a Kira fez-me perceber que a melhor forma de destruirmos o medo é enfrentá-lo. E, com ela, eu desfiz um bocadinho a barreira do meu medo pelos cães.
Agora, a Kira foi correr sem destino, foi farejar o mundo que teimam em dizer que é melhor do que o nosso, embora ninguém saiba de sua justiça se isso é verdade. Quero acreditar que sim. Porque a única certeza que temos ao longo deste caminho, nem sempre justo e nada fácil de compreender, é a de que um dia já não haverá mais dia.
A sua fotografia permanece imortalizada na minha fita de fim de curso e a sensação do seu peso no meu colo, ficou gravada no meu coração. Não admito que alguém me diga que não gosto de cães. Porque eu gostei e gostarei sempre da Kira! Como uma fiel amiga, uma perfeita confidente e o medicamento que me atenuou o medo pelos seus amigos patudos.
Assim como há pessoas que nos assustam e outras que nos causam empatia, eu e a Kira tivemos uma ligação empática e completa, que ninguém pode negar. Ontem à noite, o André disse-me: “Ela gostava muito de ti!” e eu sei que é verdade.
Enquanto eu tiver memória, a Kira estará aqui. Como uma recordação bonita no que resta da minha solidez, já tão calejada de perdas. E, por isso, eu não a perdi. Nós não a perdemos.
Perder, não é deixar de estar fisicamente, é apagar da memória. E enquanto a minha permanecer, ela também permanecerá…
A Kira, foi o meu acaso mais bonito.
Descansa em paz, fofinha.
E obrigada por tudo o que me (nos) ensinaste;
obrigada pela companhia, pela sensibilidade
e pelo amor puro e verdadeiro que me deste!
[Texto e imagem originais da autora]











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