quarta-feira, 29 de abril de 2026

O ritmo da minha vida



O ritmo da minha vida não se rege pelo meu ritmo cardíaco. Não acompanha, a par e passo, as batidas do meu coração. 
O ritmo da minha vida molda-se pelas rotinas do dia a dia, pelas responsabilidades a que não posso fugir, pelos minutos em que me sinto debaixo de água e em que luto para voltar à tona, em silêncio, com um sorriso plantado na cara, em jeito de espada invisível. 
A cadência que me guia os dias – e as noites – coaduna-se com os meus momentos preferidos: as horas do banho, do sono e das papas do meu filho, as descobertas que ele faz, sem que nenhum de nós o possa prever. Essa cadência que me medeia, faz ressaltar magicamente as batidas de uma música suave e alegre, sempre que as gargalhadas dele me penetram nos ouvidos, com uma melodia que nunca, jamais, algum compositor de renome ou a falácia da IA conseguirão suplantar. É ele – esse ser tão pequenino mas aos meus olhos tão pleno – quem me faz aguentar o barco e deixar-me ir, no embalo das ondas que, no fundo, são o ritmo que a minha vida me deu.
O ritmo da minha vida ergue-se muitas vezes de mãos dadas com as barreiras, que me gritam que não sou capaz de ter o jantar pronto a horas, que devia fazer mais exercício físico, ou passar um creme no corpo durante os cinco minutos que, precisamente o ritmo da minha vida, me diz que tenho disponíveis para fazer (ilusoriamente) o que eu quiser. 
As frequências que me abanam o corpo e que me aceleram o passo, não são sempre doces nem fáceis de suportar. Como tudo o que existe, no mundo e na vida, trazem um misto daquilo que a humanidade pode, deve e tem de experimentar! E eu, sabendo isto de cor e salteado, jamais poderei dizer, com certeza, que o ritmo da minha vida equivale ao meu ritmo cardíaco.
Porque as batidas do meu coração não são, e não podem ser, fiéis ao ritmo da minha vida. São demasiadas as dúvidas, regadas com mágoa, desilusão e o peso de uma culpa que talvez não seja justo, nem certo, eu carregar sozinha. O ritmo da minha vida são os copos de água que não bebo, as refeições que salto ou faço a correr, o trabalho que me põe (supostamente) a comida na mesa e que cumpro até ao limite das minhas forças, são as horas de sono que não existem e as olheiras negras e profundas, que passaram a fazer parte da minha maquilhagem habitual. São os inputs das vozes alheias – e, chego à conclusão, mais inseguras do que eu! – que me dizem que por eu estar em teletrabalho deveria ter tudo mais orientado, do que as outras mulheres e mães que percorrem o ritmo frenético do regime presencial. 
Porém, o ritmo da minha vida ainda me consegue surpreender! Porque dentro dessa cadência, muitas vezes oca, ainda há espaço para o brilho, há espaço para as histórias que leio a um ser que é um bocado de mim, para os enredos que desfio no papel dando origem a um romance, para um momento de sobriedade, nas parcas vezes em que me permito acreditar que eu basto, só por ser como sou, e que não tenho de provar nada a ninguém, a não ser a mim mesma.
Sim! É verdade que o ritmo da minha vida, por vezes, se assemelha às batidas potentes de um Techno. Mas tão de repente como me faz correr sem vista a abrandar, muda a frequência para uma balada que me toca no peito, na alma e no coração, com uma suavidade equivalente à de um amante, que não me faz questionar exaustivamente cada dia em que não sou capaz de cumprir à risca aquilo a que me propus.
Se eu me vestisse mais vezes de empatia por mim mesma, como me visto todos os dias para os outros, talvez encarasse melhor o ritmo da minha vida e ele me desse mais tréguas em vez de cabos das tormentas para dobrar. Talvez eu não perdesse tantos concertos dos passarinhos que me pousam diariamente no parapeito da janela, talvez não deixasse escapar tantos pores do sol, tingidos com as tonalidades certas e que sempre me trouxeram a inspiração. Talvez eu aproveitasse melhor a dádiva da maternidade, sem ter o peso da culpa sempre atrás de mim, a gritar-me que podia ser uma mãe melhor, uma mulher melhor, um ser humano melhor. Talvez aproveitasse melhor o bebé lindo e maravilhoso que tenho, as descobertas incríveis do rapazinho com princípios e felicidade que estou a educar. Talvez desse ao silêncio, que tantas vezes me acompanha, a verdadeira dimensão do que ele ocupa, sem nenhuma voz secundária a martelar-me o ouvido e o juízo. 
O ritmo da minha vida não se rege pelo meu ritmo cardíaco. Rege-se pelos degraus que a cada dia eu consigo subir, sabendo o valor e o brilho que há em mim, independentemente de tudo o resto.





[Texto original da autora;
Imagem retirada da Internet]

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