Numa madrugada
cinzenta de maio, eles partiram à aventura sem olhar para trás. Estava frio,
nem sequer era verão, o céu prometia tempestade e o silêncio que reinava metia
medo aos indecisos.
Mas eles não quiseram saber! Movidos pelo impulso (e pela coragem – verdade seja dita…), enfiaram-se na carrinha pão de forma, com meia dúzia de pertences na mochila e o resto da bagagem no coração.
Invejei-lhes a ousadia. O pragmatismo de reconhecer que estava na hora de seguir viagem, sem pensar em mais nada do que a simples necessidade de se reencontrarem.
Jovens, mas com a dose certa de maturidade, souberam dar azo aos sonhos, em vez de se afundarem na realidade dura, que provoca dor para lá dos ossos e que põe em causa os resquícios de sanidade.
Admirei-os! Largamente…
Porque eu jamais seria capaz de mudar de rumo, sem pensar no amanhã.
Eu, aquela que planeia até ao limite, aquela que aponta tudo até ao ínfimo detalhe, num papel vincado pelos nervos, só para ter a certeza de que não se esqueceu de nada.
E eles, livres como a imensidão, filhos de uma boa estrela, que os iluminou, fizeram-se simplesmente ao caminho, desapegando-se de tudo aquilo que não os acrescentava.
Quem sabe, cheguem a uma praia onde as ondas embatem nas rochas e provocam a erosão que torna as memórias dolorosas mais fáceis de suportar. Talvez se sentem lado a lado na bagageira da carrinha, com uma manta pelas costas e uma lata da bebida da verdade nas mãos, para serem testemunhas da forma como o céu se tinge no pôr do sol e de como os segredos partilhados têm a capacidade de aliviar a carga e soprar os fantasmas para longe.
Talvez descubram um campo verdejante, pejado de calma e ar puro, capaz de os acolher numa madrugada muito diferente e muito mais branda, do que aquela em que partiram, sem hesitar.
Talvez o lugar-certo seja não fazer planos para depois. Talvez a verdade esteja no amanhã não programado, que liberta o ontem que nos obrigou a ajustar a rota e a (re)aprender a navegar ao sabor da maré da vida e dos caminhos que os seus desígnios dizem ser para nós.
A dor não desaparece apenas por a ignorarmos. Mas torna-se mais fácil de enfrentar quando lhe retiramos peso. E retirar-lhe peso, talvez seja, quem sabe, somente mudar o foco.
Talvez. Quem sabe. Novamente, e sempre, a incerteza que molda as questões retóricas do Universo...
Quem me dera ser como aquelas duas almas, que ousaram partir dentro de uma carrinha pão de forma, apenas com o básico, mas empenhados em descortinar o futuro na onda do deixar-ir.
O que se poupa? A ansiedade do porvir. O suor do pensamento a mais. As batidas de um coração descompassado que mede tudo, exaustivamente, antes de agir.
Quem me dera ter uma carrinha pão de forma e a coragem de trazer para uma madrugada cinzenta o sol que sei que ainda há em mim.
Mas eles não quiseram saber! Movidos pelo impulso (e pela coragem – verdade seja dita…), enfiaram-se na carrinha pão de forma, com meia dúzia de pertences na mochila e o resto da bagagem no coração.
Invejei-lhes a ousadia. O pragmatismo de reconhecer que estava na hora de seguir viagem, sem pensar em mais nada do que a simples necessidade de se reencontrarem.
Jovens, mas com a dose certa de maturidade, souberam dar azo aos sonhos, em vez de se afundarem na realidade dura, que provoca dor para lá dos ossos e que põe em causa os resquícios de sanidade.
Admirei-os! Largamente…
Porque eu jamais seria capaz de mudar de rumo, sem pensar no amanhã.
Eu, aquela que planeia até ao limite, aquela que aponta tudo até ao ínfimo detalhe, num papel vincado pelos nervos, só para ter a certeza de que não se esqueceu de nada.
E eles, livres como a imensidão, filhos de uma boa estrela, que os iluminou, fizeram-se simplesmente ao caminho, desapegando-se de tudo aquilo que não os acrescentava.
Quem sabe, cheguem a uma praia onde as ondas embatem nas rochas e provocam a erosão que torna as memórias dolorosas mais fáceis de suportar. Talvez se sentem lado a lado na bagageira da carrinha, com uma manta pelas costas e uma lata da bebida da verdade nas mãos, para serem testemunhas da forma como o céu se tinge no pôr do sol e de como os segredos partilhados têm a capacidade de aliviar a carga e soprar os fantasmas para longe.
Talvez descubram um campo verdejante, pejado de calma e ar puro, capaz de os acolher numa madrugada muito diferente e muito mais branda, do que aquela em que partiram, sem hesitar.
Talvez o lugar-certo seja não fazer planos para depois. Talvez a verdade esteja no amanhã não programado, que liberta o ontem que nos obrigou a ajustar a rota e a (re)aprender a navegar ao sabor da maré da vida e dos caminhos que os seus desígnios dizem ser para nós.
A dor não desaparece apenas por a ignorarmos. Mas torna-se mais fácil de enfrentar quando lhe retiramos peso. E retirar-lhe peso, talvez seja, quem sabe, somente mudar o foco.
Talvez. Quem sabe. Novamente, e sempre, a incerteza que molda as questões retóricas do Universo...
Quem me dera ser como aquelas duas almas, que ousaram partir dentro de uma carrinha pão de forma, apenas com o básico, mas empenhados em descortinar o futuro na onda do deixar-ir.
O que se poupa? A ansiedade do porvir. O suor do pensamento a mais. As batidas de um coração descompassado que mede tudo, exaustivamente, antes de agir.
Quem me dera ter uma carrinha pão de forma e a coragem de trazer para uma madrugada cinzenta o sol que sei que ainda há em mim.
Nádia Carnide Pimenta
[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]


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