segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Anel de Diamante



São muitas as histórias acerca do amor proibido entre o Sol e a Lua. A mais bonita (pelo menos, a meu ver) diz que ambos se amam desde o início do Mundo. Desde o começo da Vida, em todos os sentidos, ambientes e formas, quando se reuniram com o Deus que tudo criou e este lhes concedeu as maiores e as mais importantes missões da existência.
Ao Sol, conferiu-lhe a responsabilidade de iluminar o dia, onde há barulho e movimento e as formas de vida têm espaço para se manifestar; à Lua, consagrou-lhe a vigília da noite, o reino de paz que esta edifica e que medeia o descanso dos guerreiros.
Diz-se que estes dois componentes da vastidão da Via Láctea se amam desde sempre, mas que foram condenados a viver separados. Diz-se que as responsabilidades opostas que possuem os fizeram reféns. Mas há também quem conte, com aguerrida certeza, que muito raramente, quase esquecido no decorrer do tempo e na passagem das eras, estes dois amantes têm um rápido encontro. Algo que dura somente um minuto, etéreo, frágil, fugaz, mas que os deixa vigorar num abraço e atenuar – nunca matar, porque para isso seria preciso uma dimensão maior – a saudade que os faz viver eternamente pela metade, sem alcançar a plenitude.
A esse acontecimento chama-se Eclipse e este breve conto é sobre ele.
 

Eles lutaram.
Contra os lados opostos, que não os compreendiam e que exigiam a separação definitiva, mesmo que o balanço dos encontros fosse praticamente nulo. Contra as mãos (aparentemente) amigas, que gritavam querer “o melhor para eles” e que se cingiam, qual relógio de repetição, ao lema “isso não vai resultar”.
Saturados, mas sempre com vontade de vencer, participaram em inúmeras reuniões do cosmos. Todo o sistema solar alinhado, a chamá-los à razão e a dizer-lhes que “não poderia ser assim”, porque eram ambos donos das missões mais importantes do Universo.
Eles lutaram.
Com espadas invisíveis de coragem, empunhadas com firmeza e paixão. Com armas silenciosas, em que os argumentos permaneciam do lado de dentro do corpo, junto ao peito – porque mesmo sendo feitos de algo diferente e inexplicável, menos palpável mas ainda assim real – eles existiam de uma forma muito particular e tinham sentimentos, tal como a Humanidade. Lutaram com a convicção redobrada de quem sabe que, mesmo estando tudo em negação, é apenas uma questão de tempo até acontecer, ainda que seja limitado.
Eles lutaram.
Contra tudo e contra todos!
Menos um contra o outro…
No dia preciso, na hora exata, no momento crucial e indefinível, mas determinante, cederam.
Ele era luz, brilho alucinante, extroversão clara e expansiva, que ofuscava tudo à sua passagem.
Ela, era completamente o oposto. Movia-se pela claridade que conseguia captar dos corpos e das estrelas que a rodeavam, numa passagem etérea. Dona de uma forma delicada e apaziguadora, que preferia muitas vezes a penumbra e o silêncio para ousar existir, permanecia precisamente numa existência comedida, rendida ao ato defensivo de preservar a parte de si que saíra magoada ao longo do tempo, por ter arriscado demais.
Juntos, naquele momento raro de dualidade – que misturava realidade com sonho, que enleava estado bruto e imensidão onírica – sobrepuseram-se e deram origem ao fenómeno.
Ela, pacífica e reservada, foi cobrindo cada pedaço dele com a calma que a caraterizava, uma paciência cultivada ao explorar toda a topografia que a compunha – a ela e ao Mundo – e que fizera de si quem era. À medida que o ocultava, sentia o ambiente mudar, assim como ela própria. Vales, crateras, todo o relevo abrindo-se à permissão do brilho, da luz, daquilo que, por norma, media criteriosamente, antes de mostrar ao mundo.
Ele, por seu lado, deixou-se tapar, sentindo-se quente e aconchegado, como que embalado por uma melodia suave e doce, que o deixava descansar e entregar-se àquilo que os Deuses, os Planetas, a Matéria e, mais tarde, os Homens, diziam ser impossível acontecer.
E foi assim que nasceu o Anel de Diamante. Foi nesse encontro de duas premissas opostas, mas não assim tão distantes uma da outra, que uma gota brilhante sobressaiu no meio da escuridão.
Quando mais nada se via, quando o vazio, o negro e o escuro pareciam querer dominar toda a dimensão terrena e também a do Ar e do Universo, aquela única conta de luz, semelhante a uma pedra preciosa que embeleza um adorno de valor incalculável, figurou, singular, dando origem a algo que dura apenas um minuto.
Porque é assim que funciona o encontro das almas. Apenas um minuto. Um único momento raro e precioso, que por ser tão raro aumenta o seu valor.
E porque aquilo que tem de acontecer, acontece, independentemente do resto.
Quem nunca teve um amor certo na hora errada? Quem nunca abdicou de um amor, em prol de um bem maior?
Na contagem incomensurável da humanidade, são muitas as histórias de amores proibidos. De relações em que a batalha, o destino, a guerra, a paixão, se revezam para se imortalizar.
Não podemos viver sem o Sol e sem a Lua, mas eles, mesmo com essa noção, também não podem viver um sem o outro.
Talvez seja por isso que existem tantos pedidos de casamento, selados com um anel de diamante.





[Texto original da autora; 
Imagem retirada da Internet, em: 



Nota: O Anel de Diamante – de Baily (Baily’s beads) – constitui uma particularidade dos eclipses solares (totais e anulares). À medida que a Lua vai cobrindo o Sol durante este tipo de eclipse, a sua topografia acidentada faz com que gotas de luz solar se destaquem, brilhando apenas em determinados lugares. Este efeito ficou conhecido com o nome do astrónomo inglês, Francis Baily (1774-1844), que explicou o fenómeno, em 1836. O “Anel de Diamante” é observável somente quando uma “conta” é visível, surgindo como uma espécie de diamante brilhante colocado num anel, igualmente brilhante, em redor da silhueta da Lua. 





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