Dói-me o silêncio.
A minha alma grita calada.
E eu luto para me libertar.
Não sei há quanto tempo estou presa.
Não sei precisar quando erradiquei o barulho, tranquei a porta e deitei a chave fora.
No meu buraco, só eu.
E o negro e o escuro e o vazio preenchido... de silêncio.
Dói-me o silêncio.
O silêncio a transbordar das vozes caladas que, mesmo assim, conseguem falar e fazer-me companhia.
Aquelas que têm sempre uma palavra a dizer, um palpite a acrescentar, a ilusão falaciosa de que a sua opinião conta para alguma coisa, além de provocar ricochete com o barulho que fazem e devolver-me o silêncio – esse meu amigo/inimigo, que está demasiado cheio mas não me atenua o vazio.
Dói-me o silêncio, que me cala as opiniões que sei que não vale a pena dar. As palavras, que calo e que permanecem entaladas na garganta. Os gritos surdos, que me perseguem e me pressionam para que os deixe sair.
Haverá algo mais doloroso do que um silêncio onde só mais uma nota de barulho calado o faria rebentar?
Dói-me o silêncio.
O silêncio de um país abarrotado de palavras vãs.
De uma sociedade sedenta de frases atiradas sem nexo e sem reflexão, mas com a intenção de magoar.
O meu silêncio é dor.
A minha alma grita calada.
E eu luto, ineficazmente, para me libertar.
Dói-me o silêncio.
O silêncio que sou.
O silêncio que me tornou num alguém passivo, quando a atividade frenética me levou a um ponto sem retorno.
Dói-me o silêncio.
A minha alma grita calada.
E eu luto para me libertar.


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