segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Silenciosamente cortante



Dói-me o silêncio. 
A minha alma grita calada.
E eu luto para me libertar.

Não sei há quanto tempo estou presa.
Não sei precisar quando erradiquei o barulho, tranquei a porta e deitei a chave fora.

No meu buraco, só eu.
E o negro e o escuro e o vazio preenchido... de silêncio. 

Dói-me o silêncio. 
O silêncio a transbordar das vozes caladas que, mesmo assim, conseguem falar e fazer-me companhia.
Aquelas que têm sempre uma palavra a dizer, um palpite a acrescentar, a ilusão falaciosa de que a sua opinião conta para alguma coisa, além de provocar ricochete com o barulho que fazem e devolver-me o silêncio – esse meu amigo/inimigo, que está demasiado cheio mas não me atenua o vazio.

Dói-me o silêncio, que me cala as opiniões que sei que não vale a pena dar. As palavras, que calo e que permanecem entaladas na garganta. Os gritos surdos, que me perseguem e me pressionam para que os deixe sair.

Haverá algo mais doloroso do que um silêncio onde só mais uma nota de barulho calado o faria rebentar?

Dói-me o silêncio. 
O silêncio de um país abarrotado de palavras vãs.
De uma sociedade sedenta de frases atiradas sem nexo e sem reflexão, mas com a intenção de magoar. 

O meu silêncio é dor.
A minha alma grita calada.
E eu luto, ineficazmente, para me libertar. 

Dói-me o silêncio. 
O silêncio que sou.
O silêncio que me tornou num alguém passivo, quando a atividade frenética me levou a um ponto sem retorno.

Dói-me o silêncio. 
A minha alma grita calada.
E eu luto para me libertar.




[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]




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