quarta-feira, 20 de maio de 2026

A minha religião



Na folha em branco surgem palavras que há muito lutavam para sair. Frases coerentes, outras nem tanto, conforme o contexto ou o estado de espírito.
Parágrafos soltos, mas completos, vertidos de uma alma que, gota a gota, se foi desmembrando. É só no papel que ela se remenda, como se este fosse a agulha, e a linha a caneta, que a coseria para se voltar a parecer com algo, mais ou menos, inteiro.
E, assim, ditando para a página virgem o que a minha alma, por sua vez, me dita, nasceu a minha forma de religião. Porque são as palavras a minha oração secreta, o pedido desesperado do eco de mim e da sombra do que um dia fui.
É nos meus cadernos que guardo a luz, que me ajuda a ver a iluminação no caminho. É nas incontáveis páginas ­– de linhas ou lisas, tanto faz!, mas todas preenchidas de fio a pavio – que eu vejo a Bíblia que me leva até Ele.
Não sei se é blasfémia, mas posso com toda a certeza afirmar que é a sinceridade mais pura que me cruza o peito e penetra no ponto mais profundo de quem sou. A escrita, mais do que uma crença, é o sangue que me corre nas veias, as vitaminas que me equilibram, o alimento que me mantém minimamente saudável e as canadianas que me auxiliam ao andar.
A escrita é o meu deus! O meu credo. A minha saída nos dias de escuridão e o meu antidepressivo natural, que me faz enfrentar a claridade que a solidão da noite teima em fazer aparecer, quando são horas de me deitar.
Dela, não peço muito! Apenas que permaneça junto a mim, como uma mãe eterna, movida pela constância que eu me habituei, tanto a dar, como a receber.
A ela, peço-lhe tudo! Que me guie, que me oriente, que me elucide e que me faça perceber que não tenho de ficar onde já não faz sentido estar.
Escrever é uma forma de vida. É o copo de redenção que tomo juntamente com o primeiro café da manhã. É o que me impede de tropeçar ou, quando não o pode fazer, quem me levanta e me ajuda a recolocar no caminho.
Escrever é uma dádiva. É o que me faz acreditar na continuidade, no amanhã, no que vem depois (se este, efetivamente, chegar).
Escrever é a minha religião e eu sou-lhe completamente fiel, sabendo que a entrega é mútua.





[Texto original da autora; Imagem retirada da Internet]


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