quarta-feira, 3 de junho de 2026

Pela primeira vez



É incrível e mágico testemunhar como uma criança vê as coisas pela primeira vez. E, quando digo isto, refiro-me a ver, mesmo. Ver, com sentido, propósito e até com curiosidade e reverência, de uma forma que nos faz debruçar a pensar sobre isto. É aquela velha máxima cliché: quantas vezes olhamos para as coisas sem, de facto, as ver?
Tenho aprendido muito com o meu filho. Todos os dias. A toda a hora. Declaro isto muitas vezes e sei que me torno repetitiva, talvez, na maior parte delas, mas a verdade é que o meu filho me salvou de cair no abismo.
Antes de ficar grávida, passei por uma fase em que me sentia, literalmente, na corda bamba. Vivia para o trabalho, desabafava na escrita e fechava-me em casa, fazendo um esforço enorme quando tinha de sair e conviver com alguém. Depois de muitas desilusões, começava a perder a esperança, custava-me confiar em novas pessoas, porque quase todas as que já estavam na minha vida, ou que partiram sem aviso mas com consciência dessa escolha, tinham quebrado a plena confiança que lhes ofereci.
Mas depois chegou o Simão. "Simão – aquele que ouve", como um dos subcapítulos do meu O Vento Sabe Quem Eu Sou.
Aos poucos, ele fez-me desacelerar, deixar de viver em piloto automático. Devolveu-me o propósito, renovou-me a esperança e, sem dúvida, a inspiração. Fiz coisas que jurei a mim mesma nunca mais fazer. E parei de fazer outras, que comprometiam o meu tempo e, principalmente, a minha sanidade.
Decidi dar uma segunda oportunidade a quem, por sua vez, tinha decidido ficar pelo caminho. Enchi-me de coragem e enfrentei os meus medos e inseguranças. Refiz-me, qual Fénix, para o receber e obriguei-me a pensar positivo, apesar do diagnóstico imediato de uma gravidez de risco.
Ainda na minha barriga fomos criando uma ligação forte, pura e inexplicável. Quando nasceu, o Simão tornou-se o centro da minha vida. Foi um lutador desde o seu primeiro fôlego, mostrou a fibra de que é feito e a sua força de viver. E foi, precisamente, desde o seu primeiro minuto de vida que eu percebi como ele é sensível, observador, astuto e perspicaz. Claro que tem os seus defeitos, como toda a gente. Herdou a teimosia, sobretudo (e dos dois progenitores, claro!). Mas é completo e, para mim, aos meus olhos, mais do que isso, é completamente perfeito!
Adoro ver a maneira como ele se empenha no que faz, a sua persistência e o facto de não desistir quando descobre um novo jogo ou brincadeira. Absorve tudo à sua volta e eu (re)descubro com ele tudo aquilo que achava que já compreendia.
Que cada detalhe tem um significado incomensurável. Que o sabor de um raio de sol é tão importante quanto o da comida que temos na mesa e que, muitas das vezes, comemos apenas porque tem de ser. Que um prato de quadradinhos de queijo e puffs de milho pode facilmente transformar-se num bando de lagartinhas saltitantes e, acima de tudo, que mesmo nos dias cinzentos (ou particularmente nesses) pode-se pintar com essa cor no papel e desenhar o infinito.
O Simão ensina-me a ver as coisas com outra perspetiva, mas especialmente com olhos de ver. Ele ensina-me, todos os dias, a ver as coisas pela primeira vez!
Ele gosta de livros, de jogar à bola, de inventar as suas próprias brincadeiras ao ar livre. Sabe as cores, os números e as letras. E está na fase "papagaio de repetição". Adora crianças, "cocuate" (leia-se: chocolate), morangos, iogurte e comida, no geral. É fã do seu paninho azul, do galo Bartolinho e de todos os membros da Patrulha Pata, comandada pelo “Ryder-Senhor”. É o meu ser de luz, porque ilumina a minha vida e a de todos os que o rodeiam.
Ele tem a inocência própria de uma criança feliz e a alma de quem já viveu muitas vidas. E eu acredito que isso é meio caminho andado para triunfar na sua.
Às vezes, quando penso nisto, tendo a acreditar também eu própria em vidas passadas e em reencarnação. Não sei o que fui ou serei nas outras… Mas, tal como nesta, escolheria ser mãe do Simão em todas elas, ainda que saiba que foi ele quem me escolheu a mim.
 

P. S – As crianças são os seres mais puros e sábios que existem. Todas as crianças têm direito a ser felizes e livres. A brincar, a aprender, a sorrir. Que nunca, em circunstância alguma, nos esqueçamos disto! Todos nós já fomos crianças. E é assim que a humanidade começa…



Nádia Carnide Pimenta


[Texto e imagem originais da autora]



Acompanhe-me no Instagram, Facebook e Linkedin.





Sem comentários:

Enviar um comentário