sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Estrutura





É toda uma estrutura. O teu corpo, que tão depressa aquece como arrefece. Que te faz sentir que nada te abala ou que tudo não passa de meandros de fantasia, rasando o núcleo da realidade. É uma estrutura aquela forma geométrica que tem mãos, pernas e pés, que tem sangue quente a pulsar nas veias e uma pele gelada como se o habitat natural fosse o Pólo Norte ao invés das ruas de Lisboa, palmilhadas dia após dia.
É toda uma estrutura. Os minutos e os segundos do relógio controlados até à exaustão, enquanto os sentimentos ficam para segundas núpcias. O coração com as batidas rítmicas ignorado em prol dos passos planeados e executados sem nenhuma falha. Pelo menos, para os que veem. Porque dentro dessa estrutura - o teu corpo - tu sentes que falhaste e que o caos te revela que mais um passo em frente e despenhas-te no precipício, sem possibilidade de retorno. 
O teu corpo é uma estrutura ordenada por ti, preenchida com as regras que foste recolhendo, moldada pelos desejos dos outros e por aquilo que esperam que sejas. Limas as arestas até ficarem direitas. Endireitas a coluna, desatendendo que ela é torta por natureza e prossegues. Prossegues num caminho que ninguém sabe muito bem onde leva, mas sobre o qual todos teimam em opinar. 
E tu, movida pelas estruturas dos outros, que te sustêm e mantêm de pé, dás-lhes ouvidos, correndo mundo até os músculos do teu corpo latejarem, mesmo que não concordes com esse rol de vontades alheias. 
Estrutura. É esse o nome do teu corpo. É esse o nome do meu. Porque o teu corpo e o meu são o mesmo. Porque o nosso corpo é um só quando eu me olho ao espelho e vejo nele refletida a imagem da minha estrutura. 
Quando saio do banho, reorganizo as peças no sítio certo. E no espelho embaciado já não há lugar para o reflexo do meu corpo, embora eu saiba que ele está lá, atrás do véu de condensação. O vapor abre espaço e forma letras. E eu sei que, juntas, formam a definição dessa estrutura. A estrutura que é todo o meu corpo. 
E já não é um somente um corpo o que o espelho me devolve. Mas sim o seu significado. O significado dessa estrutura, que é mais do que um esqueleto com alguma carne, embora seja aquilo em que eu me tornei. O significado dessa estrutura, marcado no espelho: Sociedade.






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sexta-feira, 7 de outubro de 2022

"E pudesse eu pagar de outra forma"





Ouvi dizer que o nosso amor acaba amanhã. Ouvi dizer… Mas, também, ouço dizer tanta coisa nos dias que correm…
Ouvi dizer que as flores murchariam e a natureza morreria, porque o ser humano poluiu o meio ambiente, ofuscando a Mãe, de fumo, pedras e pó.
Como o nosso amor… Como o nosso amor se ofuscou pela banalidade que foi tomando conta das nossas vidas (a de cada um), tornando o que era comum nos extremos opostos que caracterizam as paixões do século XXI, que não duram nem vinte e quatro horas.
Mas vinte e quatro sobre vinte e quatro (tantas somas, que lhes perdi a conta) foram as horas. Foi o tempo em que uma noite (que se repetiu inúmeras vezes mas que eu prefiro lembrar singular, para tentar fazer com que não doa tanto o pensamento e o peito), debaixo de um céu brilhante, adornado por uma lua redonda, prometemos ver sempre mais além, do que a névoa de poluição que abarca a cidade e tolda as mentes dos pares da nossa geração.
Mentimos? Não sei.
Não sei, mas receio bem que sim…
De que servem as promessas, se agarramos as oportunidades para as quebrar?
Há quem diga que é para provar o gosto da liberdade. Mas, também, ouço dizer tanta coisa nos dias que correm…
Além disso, como fazê-lo? Como fazê-lo num mundo em que já começaram a retirar tudo, incluindo o ar para respirar?
Ouvi dizer que o nosso amor acaba amanhã. Mas não tive a noção.
Os meus ouvidos são surdos quando o som que lhes chega, não chega para me satisfazer.
Satisfaz-se, assim, a raiva. Raiva, por não ter tido a noção…
E como diz aquela música, E pudesse eu pagar de outra forma…
Mas não posso. E tal como ela, também o teu nome está escrito por toda a cidade.
Nos vidros embaciados dos carros.
No nevoeiro cerrado da avenida.
Nas tabuletas que indicam as possibilidades de escolha de um caminho.
E nas paredes do meu quarto.
A escuridão do meu mundo privado, que deixou de ser nosso e fez de mim carne, amor-mágoa e poesia…
Ouvi dizer que o nosso amor acaba amanhã. Não posso pagar de outra forma, por mais que queira.
Porque o amor, mesmo que acabe, deixa a sua doença sem cura. Elevada ao expoente da loucura, mais ou menos como retrata aquela música, que tocava em forma de banda sonora de um amor que tinha tudo para dar certo mas, tal como a humanidade e o que fizeram dela, deu errado.
As construções sustentam a cidade, mas o nosso amor é um arranha-céus em derrocada. Ouvi dizer que ele acaba amanhã.
Ouvi dizer… Mas ouço dizer tanta coisa, que já não sei no que acreditar.
E se houver outra forma de eu pagar por este fim, que me digam, já que dizem tanto, sem me explicar nada.






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terça-feira, 17 de maio de 2022

Entre olhares





Pergunta-me.
As respostas estão espalhadas por aí.
No sorriso.
Embrulhadas no riso das piadas que só nós entendemos.
Hoje demos mais um passo rumo à vitória. E foram tantas as perguntas que ficaram por   fazer…
Olhas para mim como quem fura a camada mais intensa da alma e o teu olhar brilhante fala calado.
"Queres perguntar-me alguma coisa?".
As respostas estão espalhadas por aí.
No tempo. No mar. Na praia.
Na esplanada que alberga o vento que nos agita os cabelos e na bebida enchendo dois copos a meio, que partilhamos para ficarmos em sintonia.
Tenho o vício agreste – quase tão agreste como o vento – de fazer perguntas, de precisar de ter certezas, de ouvir da boca de quem amo o que completa e alegra as discrepâncias de mim.
Sempre fui difícil e o que é fácil, se não tem uma explicação lógica, deixa-me enterrada na areia, prestes a ficar presa para a eternidade.
Mas a eternidade é um horizonte tão profundo, como aquele que se divide num misto de cinzento e azul, neste dia frio, somente de temperaturas altas para nós os dois.
Talvez me tenha tornado lamechas e mole, no momento em que percebi que as perguntas que te faço não precisam de ter som. Tu adivinhas, compões as malhas de convicção que me fazem ter as tais certezas tão definidas que, no fundo, não servem para definir nada, porque os teus olhos falam e isso chega-me.
“Queres perguntar-me alguma coisa?”.
Faíscas que saltam e letras que se desenham, nas pupilas dos teus olhos. E tudo o que eu preciso, está em ti.
Hoje o som não faz sentido. As palavras e os discursos perderam o norte e eu encontrei-me na bússola que se traduz nas tuas palavras caladas e nas marés calmas e carregadas de promessas, que ondulam no teu olhar…
“Queres perguntar-me alguma coisa?”.
Ainda é Inverno mas o meu coração está quente. Há momentos e pessoas que nos aquecem por dentro.
Em gestos tão simples como mãos dadas a percorrer a avenida. Ou o caminho lado a lado, na faixa de areia que delimita a entrada para um mar revolto.
É bom ir à praia no Inverno.
É bom mudar a rotina e contrariar o que, à partida, está delineado em cada estação. É bom sentirmo-nos vivos.
E eu sinto!
Sinto tudo, quando olhas para mim e dizes em silêncio, apenas com um olhar.
"Queres perguntar-me alguma coisa?".






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terça-feira, 10 de maio de 2022

Tudo ou nada





Não há nada, mas, no entanto, há tudo!

Há o aroma a café, de manhã, quando acordas. Deixa-me dizer-te que, agarrado a ele, vem o sabor do carinho, do amor e das emoções boas. É um gesto de amor fazer café para alguém.
Há o sol a entrar, quando abres a janela. Ou o barulho da chuva, num dia cinzento. Com eles, seja um ou seja outro, vem agrafada a certeza de que respiramos, de que estamos vivos. Agradecer por mais um dia devia ser, simplesmente, um hábito rotineiro.
Há a decisão complexa de escolher o que se vai vestir. E, quando se abre o guarda-roupa e se vê a diversidade, aparece a certeza de que, pelo menos nós, ainda temos por onde escolher. Há alguém, num canto qualquer, de um sítio qualquer, num mundo qualquer, mas menos risonho que o nosso, que não tem nada para vestir.

Não há nada, mas, no entanto, há tudo!

Há os sonhos que eu sonhei durante a noite e que, quando a manhã chega (enquanto bebo o café que me preparaste), tenho a benesse de conseguir passar para o papel. Não há nada melhor, nem mais gratificante, do que o poder de conseguir passar o que se sente para a eternidade. Construir memórias, edificar lembranças e provar o gosto tão doce e inexplicável do que é a escrita.
Há os transportes que temos de apanhar para o trabalho que nos espera. É cansativo, sim! Mas mais vale ter um trabalho, ganhar o próprio sustento, do que contar os tostões ao fim do mês (ainda que o façamos, por vezes). Ter a consciência tranquila e, mais uma vez agradecer, pela oportunidade que, nos dias que correm, nos caiu do céu.
Há o telefone a tocar. Saber que alguém que nos é querido ainda está e se lembra de nós. Há lá coisa melhor do que demonstrar o que se sente! Uma mensagem de alguém especial faz com que o dia seja mais fácil de suportar.
Há a magia das noites. Chegar a casa e ter alguém à nossa espera. Uma pessoa, um copo de vinho, um livro, a nossa série preferida ou o nosso animal de estimação. Solidão ou casa cheia, cada um é livre de escolher o que quiser. E seríamos todos tão mais felizes se aprendêssemos a respeitar quem é diferente…

Não há nada, mas, no entanto, há tudo!

Então, porque é que continuamos a descarregar as nossas frustrações, em tudo e em todos?
Então, porque é que nos culpamos incoerentemente, por coisas que não nos cabe a nós controlar?
Então, porque é que achamos que ainda é pouco? Porque é que não há empatia e porque é que matamos por causa disso?

Não há nada, mas, no mundo – naquele onde vivemos –, há tudo!

E é melhor aproveitar, antes que o tudo se torne nada e nada restar do tudo que somos.






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terça-feira, 19 de abril de 2022

"O Homem é uma máquina"





São nove da manhã. E a marcação cerrada dos ponteiros do relógio não dá ponto sem nó. Porque às nove da manhã todo um mundo repetitivo começa.
Os oníricos da carne, robôs da sociedade. Elegantes nas indumentárias, com cheiro a limpo e a manhã renovada, emanados na maneira assertiva de caminhar e na voz, monopolizada para o tom certo. Deselegantes, num mundo que precisa da mudança. A mudança encontrada nesses sonhos, no estado letárgico que as escassas horas da noite permitem entre os lençóis, que não querem ser deixados sós, quando o despertador toca.
Mas como cordeirinhos bem ordenados de um rebanho, lá vão. Seguem em fila indiana, deixando a quimera da noite nas horas altas. Porque a partir das nove, o cosmopolitismo comanda. “O Homem é uma máquina”.
Põem os sonhos de parte e avançam, porque é isso o que é esperado da parte deles. É isso o que está afixado invisivelmente num placard qualquer, algures na mesma cidade poeirenta de sempre, cinzenta, esbanjadora, que os faz esbanjarem também as vontades, guardando-as dentro da caixinha onde guardam o ordenado.
E às cinco da tarde, no horário de saída, este prolonga-se com as chamadas horas extra, que não somam nada – apenas subtraem tudo. O ir buscar os filhos à escola. O partilhar aquele prato especial, com o amor das suas vidas. A ida ao cinema, para descontrair e sentir que se está vivo.
Mas não faz mal. Não faz, porque os robôs da sociedade precisam de muito pouco. Uma sandes chega-lhes para calar o estômago. Uma promessa de amor eterno enviada através do WhatsApp basta-lhes, para saberem que ainda não estão solteiros. Uma foto dos filhos emoldurada, sob a secretária, lembra-lhes que o “vou ficar a trabalhar até mais tarde”, é todo por eles.
Oníricos da carne, não se apercebem que são também oníricos da própria vida e do que está à sua volta. Para a sociedade são apenas um número, mas para alguém, por vezes alguém de tão pouca idade que ainda não sabe dizer por palavras o que é o Amor, são a vida inteira.
“O Homem é uma máquina”, seja o que for que isso significa. “O Homem é uma máquina”, esquecendo-se que não é a máquina do tempo. Porque essa, só existe nas horas altas da noite, em que inconscientemente se permitem sonhar.






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quarta-feira, 13 de abril de 2022

Os meus fantasmas





Aos meus fantasmas, agradeço-lhes o tempo dispensado. Tudo o que vivi, serviu para aprender e tornar-me no que sou hoje. Sento-me na mesma mesa, igual a sempre, e sinto o sabor dos meus fantasmas na língua. De cada vez que escrevo, pronunciando as palavras em voz alta para lhes conferir ritmo e vividez, sei que estou um pouco mais perto do abismo.
Ironia? Não. Já não consigo acreditar numa consequência tão parca como essa. Porque as minhas consequências advieram dos meus fantasmas. E, a esses, eu agradeço-lhes com toda a pompa e circunstância por aquilo que me deram. Deram-me sempre, sim! O que foi mau, serviu como lição: não cometer o mesmo erro duas vezes (fingindo que não os cometi multiplissimamente só para me certificar de que um erro é sempre um erro…). O que foi bom, ditou-me a verdade e a certeza, permanecendo em mim sob a forma de memória.
Há dias em que os meus fantasmas me assaltam demais, extenuando-me até ao limite. Mas, em ocasiões calmas como hoje, gosto de me sentar na mesa onde por norma escrevo e dedicar-lhes uma vénia sentida. E nunca antes um assalto foi tão bom. Nunca antes um assalto foi tão certo, como aquele que os meus fantasmas me fazem.
Corrompem-me a alma, dissecam desde músculos a pensamentos, trazendo-me o que há muito tempo perdi a esperança de conseguir ter. Para os meus fantasmas, tenho um prato reservado na mesa onde como, um lugar de destaque para ouvirem as histórias que crio e uma almofada pronta a usar, ao lado da minha, quando na crença de que o dia está findo e eu estou cansada, decido dormir.
Olho à minha volta e reflito. No silêncio que me abate a casa, no vazio de pessoas que há, para além de mim, olho à minha volta e reflito no meu percurso até aqui. Fecho os olhos e sinto a presença. A presença dos meus fantasmas que, sem me tocarem, revelam num sussurro “não estás sozinha!”. E eu acredito, como acreditei em tudo aquilo que eles me deram, fosse escuridão ou luz para escrever e caminhar.
Por isso, aos meus fantasmas, eu agradeço-lhes o tempo dispensado. Quando era pequena, tinha medo do escuro, medo dos fantasmas remetidos a categoria de “seres de outro mundo”. Hoje, sei que eles existem mas que não fazem mal a ninguém. E eu sinto - sinto mesmo, de coração e razão encaixados um no outro - que tenho de lhes agradecer.
Aos meus fantasmas, faço-lhes uma vénia sentida. E ao curvar-me para dar azo ao gesto, sei que estou prestes a cair no abismo. Mas não me importo. Já perdi demasiado tempo a importar-me com demasiadas coisas. Mesmo que caia, não me importo. As quedas, os tombos, os fantasmas e eu, estamos todos no mesmo barco. E o fim da travessia será a história que nunca pensei em escrever.






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terça-feira, 5 de abril de 2022

Constelações





Tu gritaste que havia constelações no teu olhar que eu ainda não conhecia. Eu fui-me embora, convicta de que já sabia de cor todo o teu brilho. Somos pedaços de Céu, fragmentos de Estrelas, rastos de planetas onde existem novas formas de vida. Somos muito. 
Somos muito e não é esse o problema. Somos muito mas achamo-nos pouco. E é esse o cerne da questão. 
É esse o cerne da questão, que nos faz duvidar de que, desde que sonhemos e lutemos, conseguimos tudo!
Não quis ouvir os teus gritos e ousei virar as costas em busca de um novo caminho. Não quis ouvir os teus gritos que, no fundo, eram uma súplica ardente de alguém igual a mim, que ousou arriscar e vive intensamente a vida que a Vida nos deu. Virei-me, afastando-me, convicta de que já sabia tudo. 
Os teus defeitos. 
As minhas falhas. 
O reflexo dos teus gestos, espelhados nos meus olhos, fixados no teu sorriso, quando me disseste aquela frase, a frase que mudou tudo: “Gosto de ti, e agora?”.
Tu gritaste que ainda havia céu para desbravar, mas os meus pés estavam cansados de andar sempre no mesmo tipo de piso, querendo experimentar rumos desconhecidos.
Virei-me. Virei as costas e virei o jogo, colmatando aquela história. Um remate do último capítulo, que mostrava todas as luzes mágicas e acesas da cidade, quando a noite cai.
Eu fui-me embora, enquanto gritavas, implorando-me para ficar. Fui-me embora, convicta de que já sabia de cor o teu brilho.
Tola que fui. Ingénua que sou. A única certeza é a de que não sabemos nada. Até ao último suspiro. Até ao último sopro de vida, estamos sempre a apr(e)ender.






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